terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sobre as coisas em que não acredito II

Depois de um tempo na onda católica, não sei por que razão, minha mãe resolveu apelar para o espiritismo. Ainda era algo meio concomitante; um pouco na igreja, na missa de domingo, fazendo uma novena e me obrigando a rezar o terço com ela de vez em quando (lembro até hoje do salve rainha) e, um pouco de palestra no centro espírita, um passe maroto, uma aguinha fluidificada.

Eu gostava do centro espírita e uma das primeiras razões para gostar de lá é que falavam sobre coisas mais palpáveis, como ser caridoso com o vizinho e saber perdoar, o que era bem diferente de ficar falando sobre os coríntios, filisteus e sei lá mais quem... no tempo em que galera só vivia à base de pão, vinho, linho e sandália no estilo gladiadora. Gostava muito, também, porque essa temática me mantinha acordada durante quase toda a palestra, ao contrário da missa que me dava um sono horroroso!

E daí que havia a temática da reencarnação que, para mim, na época, esclarecia muitos pontos que estavam obscuros e que insistiam em encontrar somente explicação divina - Deus quis, Deus escreve certo por linhas tortas, vontade de Deus, essa merda toda - para tudo de ruim que havia no mundo. Morreu cedo porque em outra vida fez coisas que o prejudicaram; nasceu deficiente porque sofreu um acidente em outra vida ou fez algo de ruim para alguém e agora está pagando nessa vida. Se encontrar alguém que não for com a cara é carma; qualquer problema de família é justificado como expiação e todas essas coisas. Okay, até que na minha cabeça de dez, doze, quatorze anos, aquilo fazia sentido e eu adorava o Chico Xavier (!!!), achava ele um cara incrível, ainda acho na verdade, e isso independente de qualquer fator religioso, porque fosse ele um médium de verdade ou não, a vida que teve, todo o trabalho social que ele fez, todas as pessoas a quem ajudou com os livros que escreveu... acho que o lance dele era a caridade de uma forma muito bonita, altruísta, humana, enfim, ele era uma figura admirável sem qualquer dúvida.

E também havia os romances espíritas que eu a-m-a-v-a!!! Lia vários e ficava naquela ilusão bonita que a religião nos proporciona... lia as histórias das gurias que eram uma fodidas nessa vida, mas que em vidas passadas foram nobres, ricas, lindas e maravilhosas, mas aí, dava um problema no carma delas e elas tinham que se lascar um pouco para compensar e poderem evoluir, sabe como é deus, né? O safadinho dava com uma mão e tirava com a outra, então eu acreditava que se a nossa vida não era muito boa, devia ser uma compensação de algo errado no passado ou que se estava muito difícil agora, em algum momento haveria uma retificação por parte de deus e tudo ficaria bem.

Não quero chegar aqui e só descer a lenha no espiritismo porque, apesar de não fazer mais sentido para mim, não tenho como negar que essa foi a religião a me mostrar o valor da caridade, do perdão, de fazer o bem sem olhar a quem, de saber que somos todos iguais, menos os negros, porque de acordo com o Alan Kardec os negros não são como nós, brancos privilegiados. Bom, quando descobri que ele pensava assim, e que isso estava escrito na porra dos livros que ele escreveu, mandei o Kardec se foder e decidi que, né? Não podia estar certo o negócio. De qualquer forma, lembro com veemência que, apesar desse senhor ter sido um eugenista imbecil, todos os espíritas que conheci ao longo da minha vida não propagavam esse tipo de imbecilidade, dando um mérito realmente positivo para a doutrina, a despeito de seu criador.

Ainda assim, essa descoberta só se deu quando eu já tinha uns vinte e poucos anos, de maneira que me desgostei da coisa, mas também não me sentia desamparada religiosamente. Estava passando por um período de questionamentos e somando às crenças que eu tinha na sorte, me considerava ainda uma pessoa bastante crédula e otimista em relação à vida, ao mundo, porque é isso que as crenças nos proporcionam, conforto, sensação de que em algum momento as coisas farão sentido, seremos recompensados por tudo e alguém vai nos salvar.

Eu queria que meu pai tivesse me salvado, mas adivinhem? Não, ele não veio; ao contrário, desistiu da vida e se matou e acho que depois da morte dele, durante algum tempo tive que acreditar muito que tudo ficaria bem, que as coisas se ajeitariam porque eu já estava sofrendo pra caralho, então uma hora tudo tinha que melhorar; pensava que meu pai estava sofrendo em algum umbral e que ficaria por lá durante muito tempo, até se arrepender (haha). Cheguei a acreditar que meu pai me assombrava porque fui a uma parapsicóloga que disse que ele estava "encostado" em mim mas, hoje, felizmente, penso diferente. Antes achava que ele tinha sido egoísta por se matar, mas hoje vejo que egoísta era eu por pensar que para não fazer os outros sofrerem, ele deveria enfiar toda a dor e vazio que ele sentia embaixo do tapete, e que deveria continuar vivendo para o deleite dos outros. Só consigo ver as coisas por esse prisma porque não acredito mais em nada, além do direito inalienável que ele e qualquer ser humano tem de ser autônomo em relação à sua vida; não fosse assim, estaria até agora achando que ele foi pro inferno porque só deus é quem tem o direito de-tirar-a-vida-de-alguém-porque-foi-ele-quem-nos-fez blá blá blá vá à merda!

Hoje eu acredito que ele é energia e está por aí, por toda a parte, sendo mais uma pecinha do universo, pertencendo ao todo, inclusive estando dentro de mim, já que sou parte dele também. Acredito na energia e nas vibrações que nós emanamos, no que transmitimos aos outros e confesso que a minha não vibra sempre na melhor das sintonias, mas até que me esforço para ser melhor todos os dias, por mim mesma, pelas pessoas que eu amo, mas nunca por deus, nunca esperando uma recompensa celestial, nem sentindo mais culpa e temendo uma punição; a natureza estabeleceu na prática a lei da ação e reação e ela funciona lindamente com o que supostamente Jesus teria dito: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. A gente pode traduzir como: ame seu coleguinha (ação) e ele também te amará (reação); seja um pau no cu com seu coleguinha (ação) e ele também será com você (reação). É prático, didático, não exige nem céu, nem inferno e todo mundo pode tentar em casa sem grandes riscos!

Até gostaria muito de acreditar que a gente não morre, que só o que morre é o corpo, que nós permanecemos... seria um grande alívio para o meu coração porque às vezes me consumo pensando em como deve ser não existir... minha consciência só sabe o que é existir, ela não conhece o vazio, o zero, o nada e, olha, dá uma pira cogitar isso, então prefiro não meditar muito a respeito, mas também prefiro não me enganar com um deus imbecil. Se há uma força criadora, nunca que ela seria como nós, cagadores de tudo... e oni-porra-nenhuma; acho que seria uma força criei-agora-se-virem-aí, enfim.

Não acredito em horóscopo diário, mas acredito em mapa astral; o meu é incrível e fala de coisas íntimas e precisas a meu respeito que, talvez, possam ser exatamente iguais a de outras milhares de pessoas, mas me reservo o direito de acreditar nisso; já que não acredito na existência de um deus, deixem que eu me iluda com a influência dos planetas na minha vida! =P

Não acredito em fantasmas, mas acredito muito que a Regan do Exorcista possa aparecer por aí para avacalhar comigo, porque apesar de não acreditar no demônio, Pazuzu era considerado um demo-demorô nas antigas e esse filme é simplesmente o melhor filme de terror já feito em todos os tempos na história do mundo e, mesmo depois de saber as falas, de ter visto o making of e tê-lo assistido incontáveis vezes, é o único filme ao qual eu assisto de boa e depois fico semanas a fio vendo a cara daquela lazarenta no escuro antes de dormir. Desculpem, o medo é um bagulho irracional e a gente só sente.

Não acredito que tubarões possam se teletransportar para águas aleatórias como de piscinas e lagoas, mas acredito que, no escuro, eles possam aparecer (junto com a Regan) para avacalhar comigo e, assim a vida vai seguindo, cheia de convicções bizarras como essa minha ou como essa sua, de ter fé num deus que existe tanto quanto uma menina endemoniada montada em um tubarão e aparecendo no meio da noite no meu quarto para não me deixar dormir.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sobre ser (in)competente

Antes de entrar na (in)competência em si, devo dizer que ela anda de bracinhos dados com a desistência; olhando nos rascunhos do blog, vi o título de um texto: Sobre desistir e desistências e, adivinhem? Só havia o título mesmo, porque nem sei, mas desisti de escrever sobre o tema e isso muito tem a ver com não me achar competente, boa o bastante; uma chateação sem tamanho.

Esse sentimento de não ser capaz vem "desde sei lá quando", junto com o "não faço ideia de como cheguei aqui, nesse estado", e deve ter suas raízes lá na infância, como quase tudo de bom e de ruim que vai compondo a gente e nos transformando em seres complexos, cheios de buracos, cheios de vazios mal preenchidos e cheios de inseguranças maquiadas de ego grande e falsa modéstia.

Essa semana estava olhando minha lista de resoluções deste ano, que escrevi no dia 31 de dezembro de 2014; eram 13 resoluções e eu mal e porcamente cumpri três. Mas peraí, Karla, mal e porcamente porra nenhuma, cumpriu lindamente!

Percebam que não é a Karla, ser uno, que escreve esse texto, sou eu e algumas de minhas nuances. Eu tô aqui, neutrinha, neutrinha, mas conheçam o meu lado dito "incompetente" e o meu lado dito "esforçado". O Esforçado poderia ser chamado de lado competente, mas o lado Incompetente ainda exerce um poder ligeiramente maior sobre ele e acha que não merece um nome tão melhor, ou seja, você é Esforçada, mas não chega a ser "competente"; dá pra entender?

Eu não questiono isso pela simples razão de achar que realmente não mereço ser chamada de Competente, porém, apesar disso consigo reconhecer meu esforço e perceber que estou aqui, lutando com uma "galera interna" pra ver se consigo me sobressair sobre mim mesma. Não é fácil e dá um trabalho do cão!

Tenho uma crença muito negativa que me diz que não sou muito boa em nada do que faço. Eu acho que isso acontece não porque não sou boa de fato, mas porque sempre insisto em me comparar com os outros e, daí, sempre haverá alguém melhor mesmo; acontece que isso me afeta tão profundamente que eu simplesmente esqueço que se há melhores, há também os piores do que eu! Ahááá!!! Então, penso que nasci pra ser aquela mediana, brochante, nem boa nem ruim, picolé de chuchu... sem contar que preciso me lembrar dos piores que eu pra me sentir menos pior do que eles e talvez, só talvez - porque tudo é questão de perspectiva -, esses piores, mesmo sendo piores aos meus olhos, não se vejam assim porque podem ter outras questões mais importantes a tratar na vida...

Pela perspectiva, eu deveria pensar mesmo é que nunca serei a mais foda da história da humanidade em tudo, masss, sou muito boa em coisas que me satisfazem e nem tão boa em outras coisas, assim como acontece com todas as pessoas. Por exemplo, eu sou muito boa em fazer as minhas próprias unhas; dos pés AND das mãos! Só preciso estar inspirada, porque unhas bem feitas exigem uma tarde toda de foco e concentração. Graças ao meu talento para comigo mesma, não gasto com manicures. Acho que já fiz as unhas meia dúzia de vezes no salão em toda a minha vida. Até para o meu casamento, eu mesma fiz na véspera e oh, ficaram bem bonitas!

Claro que passo por épocas em que fico meses sem chegar perto de um vidro de esmalte, ou faço e arranco bifes ou borro uma unha e tenho que fazer tudo de novo, profiro um sem número de palavrões e tenho vontade de mergulhar numa porra de uma banheira de acetona, mas não, limpo a cagada e continuo. Sou muito boa também em outras coisas que não me lembro agora, mas asseguro que sou competente em outras áreas além de fazer bem "minhas próprias unhas quando tenho vontade e inspiração para isso"; é só que não me ocorre mais nada por enquanto hehe.

Voltando às resoluções, disse que cumpri três delas e não vou falar das que não cumpri, porque não preciso desse tipo de lembrança da minha incompetência, fracasso ou como vocês quiserem chamar.

A primeira, na verdade, não posso dizer que cumpri, mas fiz a minha parte, porque ela não dependia totalmente de mim. Eu havia dito que operaria as veias das minhas pernas que fazem aparecer aqueles vasinhos malditos, varicoses, que enfeiam a gente e fazem parecer que temos teias de aranhas nas pernas! Fui ao médico, e ele me disse que só se opera em última instância, blá blá blá, vamos fazer secagem, blá blá blá... eu fiz e parece que as coisas ficaram piores e, como fiquei bastante desapontada com o resultado, não voltei mais nem voltarei. Ano que vem vou tratá-las com laser! Vamos ver se dá certo. Bom, não operei porque o médico falou que não deveria. Okay, uma já foi.

A segunda foi parar de fumar. Muita tristeza no coração. Muita vontade de fumar quando saía, quando bebia, quando conversava, quando estava puta, quando estava feliz, muita saudade de fumar enquanto estava viva resumidamente! Olha, parei na raça! Nos três F's da galera fitness: força, foco e fé. Claro que dei umas fumadinhas ocasionais, mas que não foram o suficiente para me jogar de volta no vício. Acho que a fase da fissura já passou. Seguro bem melhor a onda e só sinto vontade de fumar em casos de muito amor (conversas com pessoas queridas que não vejo há muito tempo e que fumam, fdp!) ou de muito ódio (estresse em nível cavalar), mas no geral, apesar do marido fumante, fico bem de boa na lagoa sem o cigarro. Comecei um novo tratamento para minha asma e já não uso a bombinha há uns dois meses (?). Tenho que confessar que me sinto bem melhor sem o cigarro e que o seu cheiro eventualmente me incomoda, apesar de de vez em quando ele me trazer uma grande sensação de nostalgia. Quem sabe quando eu estiver com uns 75 anos volto a fumar, já que não dará mais tempo de desenvolver um câncer?!

A terceira coisa, a que me desafiou intelectualmente - e esse lado me perturba tanto... porque me sinto burra, muito burra, burra pra caralho de vez em quando (!!! ) -, foi fazer uma disciplina do mestrado de História como aluna especial. Foi assim: a resolução dizia que eu deveria estudar e me preparar para fazer o mestrado. Então surgiu a possibilidade de eu fazer uma disciplina como aluna especial, que poderia ser validada posteriormente. Eu me inscrevi (mas o lado incompetente já dizia que não seria selecionada porque não tinha nada no Lattes, porque não era uma disciplina da minha área de formação, porque eu era BURRA e isso estava estampado na minha inscrição), e tcharam! fui selecionada!!! =)

Mas, sempre prevendo que "ser selecionada é fácil, difícil é fazer a disciplina!". Beleza! Primeiro dia de aula, a professora explicou como seriam as aulas, como seriam as avaliações, quantos seriam os textos e disse que deveríamos escrever um artigo para a conclusão da disciplina. Fiquei com esse artigo na cabeça desde o primeiro dia, em pânico porque, para escrevê-lo, deveríamos articular textos da matéria com o nosso projeto de mestrado, pro-je-to de mes-tra-do!!! Puta que pariu! Eu não tinha um projeto de mestrado, eu nem estava no mestrado! Eu quero fazer um mestrado, mas não faço ideia de qual seria meu tema, meu problema, meu projeto!

Fui segurando a ansiedade porque até que conseguia debater os textos nas aulas; não parecia algo tão de outro mundo. Na minha cabeça, fazer um mestrado ou um doutorado era algo para as pessoas iluminadas, sabe? Algo muito complexo, difícil, demandante e continuo pensando isso, a diferença é que agora eu penso que isso pode ser acessível para mim também. Quando chegou a hora de sentar a bunda na cadeira e escrever o tal artigo, quando eu sequer sabia sobre o que escreveria, eu pensei inúmeras vezes: O que eu tô fazendo aqui? Pra que fazer isso? É muito difícil pra você! Desiste logo! Você não é historiadora! Você não tem leitura! Você não tem projeto de pesquisa! Você não tem fontes! Você não tem capacidade pra isso! Você é burra, vai desistir porque nunca acaba nada do que começa... hahaha

E cada vez que eu pensava todas essas coisas, pensava também: fodeu! Porque ter uma vozinha satânica dentro de você e saber que essa voz é sua é muito ruim; é muito triste... saber que a gente não acredita em si mesmo dói pra caramba. Saber que a letargia tem um poder enorme sobre você e que ela acha que gostoso mesmo é comer e dormir; pouco ou nenhum esforço é igual à pouca ou nenhuma recompensa, mas tudo bem, porque fazer qualquer coisa dá muito trabalho e você não quer ter trabalho... =/

Depois de escrever um pouquinho, fazer um rascunho e tentar expressar o que queria fazer, mandei essas anotações para a professora e ela me direcionou; o processo continuou sofrido, só que um pouquinho menos, e quando eu fui fazendo algumas leiturinhas e concatenando as ideias e conseguindo amarrá-las foi lindo! Mais lindo ainda foi ver que depois de tanto me achar incompetente/incapaz/burra, eu consegui acabar de escrever o artigo (com infinitas 15 páginas!) e o enviei para a professora antes mesmo que o prazo de entrega acabasse. Não faço ideia se ele alcançou o objetivo que ela esperava, mas certamente alcançou os meus. Fiquei muito satisfeita com o que escrevi, orgulhosa do que escrevi, mesmo que os historiadores possam achar uma bosta, foi uma bosta escrita com muito esforço e dedicação! E eu adorei! Espero que dê para passar na disciplina e agora só falta escrever o projeto do mestrado, para sofrer mais um pouquinho porque desafio pouco é bobagem para mim! (haha, quem vê, pensa!)

Escrever esse artigo e poder concluir essa disciplina foram os grandes desafios acadêmicos que venci este ano. Não foi só um artigo, foi uma prova de que sou capaz; de que se só gente muito inteligente consegue, fazer isso me colocou no mesmo grupo que eles, no grupo das pessoas que conseguem fazer tudo o que elas quiserem. Provei para mim mesma que se desafiar pode ser muito prazeroso e compensador. Eu posso!

Vem pra mim, mestrado, vem que eu sou PHoda!


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sobre as coisas em que não acredito

Quando eu era pequena - sim, preciso dizer isso; é o meu "era uma vez...", meu início de narrativa, minhas histórias geralmente começaram lá atrás e ainda estão se desenrolando... sou eu ali, tipo plantinha, crescendo e me espalhando pelo mundo -, agora volto para o que quero contar, repetindo.

Quando eu era pequena, bem, acho que antes mesmo de eu nascer, mas vou começar do ponto em que me percebi como ser pensante e consciente; tive pais disfuncionais. Por muitos anos, acreditei que meu pai era apenas ausente em virtude de sua separação da minha mãe e que ele não ligava lá muito para mim e essa falta só veio se mostrar com força na adolescência, depois da morte dele; mas a minha mãe, ela sempre esteve ali. Era assim na prática: pai ausente, mãe presente. Mãe fazia questão de dizer que pai não estava nem aí e pai não fazia nada para provar o contrário disso. Pintei o cenário.

Mesmo diante desse cenário tristinho - que faz parte da história de muitos e muitos, sabe-se lá quantos -, eu ainda não tinha noção das coisas da vida e era felizinha; não no sentido amplo e irrestrito, mas eu cultivava dentro de mim uma chaminha brilhante e vermelho-azulada de otimismo. Era bem otimista. A cara fechada da minha mãe, seu cansaço e a constância em reclamar da vida, da falta de amizades, de melhorias, aquela coisa de adultos que têm problemas, aquela vida pesada de viver mas que, como não tinha jeito, a gente tinha de se agarrar em alguma coisa e como nos agarramos!

Aí nos pegamos em Deus - naquela época, ele ainda era grafado com letra maiúscula pra mim -, mas não éramos como os crentelhos, ui, não, nunca fomos (!); é só que com vida difícil, a gente se apegava com tudo, éramos sincréticos. Vejo que minha mãe buscava na religião alguma resposta para as dificuldades, mas mais do que isso, vejo que ela buscava o fim dos problemas; ela não queria mais se preocupar com problemas, então, sei lá, pensava que se fosse às missas, rezasse e pedisse muito, as coisas ruins iriam embora, e acho que tantos outros pensavam assim também. Além disso, ter um Deus responsável por tudo de bom ou ruim que acontecesse nas nossas vidas era um tanto cômodo, porque seja como for "Deus proverá". Bastava rezar, ler a bíblia e seguir suas leis (nunca li a bíblia inteira e dos dez mandamentos, só não matei, porque o resto...).

Rolavam fases católicas em que íamos à missa aos domingos e isso era um martírio. Minha mãe, com toda sua gentileza, só que nunca, nos obrigava a ir à igreja e era um saco! Primeiro porque se não fôssemos cedo, teríamos de ficar em pé por mais de uma hora, lá no fundo da igreja lotada. Eu gostava de sentar nos primeiros bancos, porque pareciam um lugar mais privilegiado, só que nunca sentamos nos primeiros primeiros, porque parece que eles eram meio reservados para as tiazinhas que batiam ponto no recinto sagrado, de maneira que sentar no quarto ou quinto banco já era muito bom e evitava os olhares feios lançados em caso de atraso: "que mal católico, tem que chegar na missa cedo! Se chega atrasado é porque não dá a importância devida a Deus".

Chegávamos e já procurávamos o jornalzinho de ritos. Aquela coisa era o roteiro do católico feliz, porque se você não era uma carola e ia ouvir o padre falar ocasionalmente, sem um jornalzinho daqueles pra acompanhar, você ficava completamente perdido. No meio do senta-levanta, das repetições de "glória sei lá o quê" e "graças a Deus", das músicas tocadas no teclado (que coisa blergh!) e do fato de que quase nunca eu entendia tudo o que o padre falava porque o microfone dele era horrível; no meio de tudo isso que eu não entendia bem o porquê de ser daquele jeito, eu sentia que era um lance meio vazio, parecia um treinamento de cachorros. Senta, levanta, canta, toma a óstia e pede perdão, ouve música ruim e coloca uma grana na caixinha do altar, segue o livrinho, ouve historinhas de como era nos tempos remotos e bla bla bla... Daí, no meio disso tudo, havia a única parte que eu gostava, além daquela em que eu podia ficar do lado de fora da igreja, brincando de pega-pega com meu irmão enquanto lá dentro a galera rezava, era a parte da comunhão, é esse o nome? Era a parte em que todo mundo fazia de conta que se importava com o outro e dava um abraço no coleguinha do lado, mesmo nunca o tendo visto antes. Eu gostava muito disso. Era o único momento em que eu sentia uma energia se movimentando por ali, como se fosse o pequeno momento em que as pessoas se olhavam e se viam como seres humanos, pena que era meio: "chegou a hora do abraço no coleguinha. Hey, dê cá um belo abraço! Te reconheço como pessoa e pelo tempo desse abraço ou aperto de mão, sinto a pequena brasa da empatia no meu coração católico", mas aí acabava o tempo e a missa tinha que seguir, e já voltava pro que era antes: "não te conheço, nunca te vi".

Lembrei agora que também tinha a parte de rezar "a oração que nosso pai nos ensinou", daí toda a galera dava as mãos e rezava em coro; era bonito, vai dizer?! Batia uma emoção, porque de repente os adultos estavam ali, livres de tudo o que carregavam, de mãos dadas, como irmãos... ai ai...

Enfim, nessa vibe católica minha mãe me obrigou a fazer a primeira comunhão, já que eu era batizada pela religião porque meu pai era de família bem devota. Na realidade, não sei se foi por causa do meu pai ou por causa dos dois, mas com uns nove anos comecei a catequese aos sábados, sob protestos, porque era nos finais de semana, que foram feitos para aproveitar a vida não fazendo nada de útil e não para preenchê-los com compromissos religiosos. Eu não queria, mas a minha mãe disse que eu deveria fazer porque os catequistas amados e arrebanhadores de gado diziam para as crianças que quem não fazia a primeira comunhão não entrava no céu. Então eu entendi como era importante fazer isso porque, afinal de contas, não queria ficar no limbo quando morresse, junto de outras crianças pagãzinhas. Queria o céu, o paraíso.

A turma funcionava na minha escola, numa das salas de aula. Pense em quarenta pequenos demônios tocando o terror dentro da sala, era tipo isso. Quando o curso de catequese estava acabando e estávamos quase "graduados", o último passo antes da cerimônia formal era o de se confessar com o padre. Fiquei nervosa, né, porque havia algumas falas prontas pra dizer a ele, algo como: "padre, me perdoe porque pequei..." e eu não queria errar, porque imagina se antes mesmo que eu contasse meu pecado, eu não soubesse me expressar, ele não iria me perdoar mesmo! Inferno na certa! Fui, entrei na cabine de confissão, disse o que tinha de dizer e confessei meus pecados cabeludos de menina de nove anos e recebi como penitência rezar sei lá quantos "pai nosso" e umas trocentas "ave, Maria". Okay, de boa, fácil. Mas as últimas palavras do padre foram: "da próxima vez que vier se confessar, não use roupas curtas."

PORRA, eu fui com uma roupinha nova que minha mãe tinha me dado, era um shortinho e um topzinho, era um conjuntinho de lycra super comum na época, mas parecia que Deus não tinha curtido minha roupa especial para ir bater um lero com seu representante na terra; nunca mais me confessei depois daquilo e saí da igreja me questionando: a gente se confessa porque comete pecados, mas e o padre? ele não peca? por que o padre, que também deve ter seus pecados, é melhor do que eu a ponto de dizer o que eu tenho de fazer ou rezar pra me redimir dos meus erros? por que eu preciso de uma pessoa entre mim e Deus? Deus não está em toda parte? então não preciso de ninguém para interceder por mim diante dele além de mim mesma, nem preciso ir a lugar nenhum para falar com ele...

Saí toda questionadora e passei a rezar todas as noites, antes de dormir. Não era ave-nosso nem pai-Maria. Eu conversava com Deus de verdade, mas tudo bem que só eu falava porque ele nunca respondia. Mesmo assim, sentia uma conexão feliz com o divino. Começava sempre pedindo perdão por isso, isso e isso, e dava umas explicações a respeito dos "pecados" daquele dia. Depois, pedia que ele abençoasse o mundo inteiro, especialmente a minha família, meus amiguinhos, todas as pessoas do meu círculo de convivência e conhecimento, mesmo as que eu não gostava e quando eu pedia que ele abençoasse as pessoas que eu não gostava, sentia a brasinha da empatia brilhando no meu coração, do mesmo jeito que sentia na missa, era bom. Então falava com ele abertamente sobre algumas coisas que me incomodavam, que me alegravam e ia nesse lero até dormir.

Hoje eu vejo que conversar com Deus, era conversar comigo mesma; era ter a capacidade de refletir sobre as coisas que aconteciam na minha vidinha de criança e mesmo sendo uma coisa minha comigo mesma, não havia o que há hoje e é tão forte na vida adulta: o julgamento, a cobrança, a crítica. Naquela época, conseguia me despir das minhas dores e mágoas e me perdoava todas as noites, achando que conversava com Deus e que ele me abençoava, quando era eu mesma que fazia isso, quando me permitia falar e ouvir o que queria e tinha o coração aberto para novas oportunidades de errar. Era divina a relação que havia entre todos os meus eus de criança e só percebi isso agora.

Continua.

P.S.: No dia da primeira comunhão, tive que usar um sapato branco de verniz que machucava meus pés; mesmo usando meia-calça, meus calcanhares doíam; não foi legal.



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Volver

Eu queria escrever porque achava que, escrevendo, me entenderia melhor; ah, é fato. Fica posto, registrado. Seja dor, alegria ou medo. Fica assim, pra posteridade. Pra depois reler e achar muito ruim. Pra depois reler e relembrar. Pra depois reler e me surpreender: ainda penso assim, que bonito ficou isso... Reler pra me reconhecer no papel, pra lembrar como me registro.

Me angustiava quando entrava aqui antes; não queria ver o que já tinha ido, mas olhando agora tem tantas coisas belas que mesmo o que foi dor pode ficar sem receio. Tem também um monte de bosta, daí a gente converte em rascunho.

Voltei; estou voltando...