segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Chama negra

Sonhei que voava. Várias vezes tive esse sonho. Começo dando saltos leves e quando me dou conta, estou flutuando com graça; é a melhor sensação do mundo. Meus braços me norteiam e consigo sentir o ar suave percorrendo todo o meu corpo. Rodopio, dou cambalhotas, mas é tudo lento e sinto cada parte de mim sendo parte da matéria que não sou capaz de sentir como tangível.

Hoje, eu alçava voo em uma praia, em um fim de tarde febril e de céu azul acinzentado. Havia algumas pessoas ali e a garota de cabelos cacheados me olhou com admiração quando eu ascendi. Eu trajava um vestido preto, na altura dos joelhos, acinturado e de saia rodada; estava descalça. Fizeram-se pequenos redemoinhos de areia aos meus pés, e então essa areia tornou-se um rastro de purpurina dourada por onde eu ia passando.

Eu dava a mão a ela, queria tocá-la e trazê-la comigo para o ar, mas não consegui porque ela deveria ficar ali.

Agora me ocorreu que houve linda junção de elementos. A água da praia, a areia que é o chão, a terra; e o ar, que era onde eu, fogo, me propagava, como uma chama negra, feliz feliz feliz. Enquanto houver ar, me propagarei.

Há pouco vi uma coruja perto da praia. Nunca tinha visto uma coruja ao acaso. Ela era pequena, graciosa; olhou-me nos olhos e voou livre em direção a uma luz. Sincronicidade.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sonho de véspera de primavera

Às vésperas de primavera tocam músicas antigas em noites de chuva. Chove muito, chove pouco, mas não para de chover. Formam-se cachoeirinhas nos morros e a água que se acumula no asfalto reflete a luz artificial dos carros, dos postes e dos semáforos coloridos que piscam como luzes de natal pela madrugada.

A aranhazinha tece sua teia e enfia-se embaixo do guarda-chuva xadrez que a acompanha para não escorregar nas pedras molhadas. Dividem cigarros de filtro caramelo, bebida amarela doce e vagabunda; sobem morro, descem morro em direção ofensiva pelo dia que começa a surgir cinza pelos confins do céu que tem sua cor favorita.

São quatro olhos, que se olham, ofegam e se culpam por viverem as flores da primavera. Depois, a monstrinha corta a teia, mostra a língua para o guarda-chuva e se enfia na quentura da multidão agitada.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre a dor de existir

Quando eu era criança e minha mãe vinha pra me acordar todos os dias pra ir pra escola, eu fingia que estava em sono tão profundo que ela me chacoalhava com força – e eu fazia um enorme exercício pra controlar o riso -, mas não acordava. Enquanto ela tentava me despertar, eu ouvia as coisas que ela dizia: acho que vou levar essa menina no médico, não é possível que durma tanto!

Isso era só charminho, pra chamar atenção. Não gostava de dormir.


De ontem pra hoje, devo ter ficado na cama por umas doze horas. 


Acho que ela sempre me acompanhou de alguma forma; antes como uma sombra pequena, mas com o passar dos anos e com o desenrolar da vida, ela veio crescendo, e me tomando. Não queria que ela me tomasse dessa forma que, diga-se de passagem, foi muito safada. Infiltrou-se na minha vida como se fosse minha personalidade, meu jeito; como se fosse o que sou e irremediável a sua cura.


Minha mãe dizia que eu era fechada e eu não entendia o porquê disso. Via a mim mesma como uma pessoa extrovertida e bem-humorada e depois de um tempo achei que a minha rabugice era fruto da convivência com ela, que sempre fora uma pessimista nata, mas que nada, a sombra já a tinha tomado também.


Não sabia o que era depressão de verdade, até a minha adolescência, quando meu pai resolveu se enforcar pra dar cabo da dor e do sentimento de solidão que o habitavam. Daí vi quão profundo era o buraco. Daí vi até onde uma pessoa poderia ir pra aplacar o que a impede de ser feliz, de ser como todo mundo que é “normal”.


Me deprimi às vezes, fiz terapia, chorei rios, me questionei, procurei sentidos; quis morrer, desaparecer, e aparecer pra viver de novo. Tive lampejos de felicidade quente e outros nem tanto, mornos como a brisa do verão que sempre vem. Senti muito e também senti nada. Talvez no fundo, eu sempre soubesse que tinha isso e, por essa razão, não quisesse ter filhos. Não queria minha semente estragada por aí, sentindo dor. Não queria ter uma extensão de mim mesma dizendo que devo continuar, a qualquer custo.


O sentimento da falta de vontade, da falta de amor, da falta de razão continuou dentro de mim, como um verme alimentado pela mentira, pelo comodismo. Vamos lá, mexa-se! Levante esse corpo gordo da inércia e faça alguma coisa! Isso é o pior. A crítica que vem de você mesmo, sua consciência gritando no vazio de você, urrando por movimento e mudança, e você é incapaz de dar voz a ela. Letargicamente, deitada em uma cama, você não quer morrer, só quer que isso passe; você só quer dormir e acordar desse pesadelo.


Já tinha ido a psiquiatras diversos e os remédios se estragavam pela metade em suas caixas. Copo meio vazio, eu sempre via. Ainda assim, é um copo, ainda assim há algo dentro dele, não importa quanto.


Resisti a tomar remédios talvez por eles não terem sido capazes de ajudar meu pai, talvez porque minha mãe tenha tomado tantos deles que tenha ficado meio afetada, talvez porque eu achasse que poderia dar fim a tudo isso por conta própria, mas não é verdade.


Semana passada, clamei por ajuda, de novo, e desta vez decidi que vou agarrá-la da forma que for. Se ela vier em comprimidos, chás, pílulas ou diabo, a tomarei. Tenho quase trinta anos e uma filha. O tempo não vai voltar pra mim, como não voltará pra ninguém nessa terra. Meu bebê é quem melhor me cuida, ficando do meu lado e me fazendo carinho pra eu dormir por mais doze horas. Não é justo que ela cuide de mim, porque meu intento nunca foi o de ser um fardo para os meus.


Meu sonho de menina sempre foi o de ser especial, de ter uma missão especial por essas bandas, mas eu nunca pensei que viver fosse tão difícil. Semana que vem volto a estudar, porque cabeça vazia é oficina do diabo, é o que dizem.


No fim de semana passado, fui acolhida por uma prima com quem não tinha contato, e o que mais nos ligava era a dor de um ente fugidio dessa vida, cada qual com o seu. A dor nos aproximou e fui com ela e uma parte de sua família para seu sítio. Lá, conversamos, dividimos nossos fardos, comi comida de mãe, me meti no mato e vi um lindo céu estrelado com direito a duas estrelas cadentes. Não dá pra fazer pedido a elas, porque enquanto elas passam pelos nossos olhos em décimos de segundos, estamos ocupados vendo toda a beleza do universo, do qual também somos feitos.


O que me acalenta é saber que eu também sou o mato, as estrelas, a chuva e os montes. Eu sou todo mundo e todo mundo também é um pouco de mim e, assim, tudo e todos, somos um só.