terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz natal

Natal quer dizer dia do nascimento e não me refiro ao nascimento de Jesus; refiro-me ao nascimento de todos nós, que é diário. Todos os dias morremos um pouco para renascermos no próximo alvorecer.

Quando eu era pequena, acreditava em papai noel, e em todos os símbolos que permeiam esta data. Hoje, acredito simplesmente que o natal é a época em que devemos estar com quem amamos, com quem é especial para nós, com quem faz parte da nossa vida. O natal, para mim, é a celebração de mais um ano, é como se fosse o aniversário de todo mundo no mesmo dia, celebrando a vida e o amor. Que aproveitemos este dia para refletir sobre os passos dados, sobre o que estamos fazendo aqui e sobre como podemos ser melhores para os outros e para nós mesmos.

Desejo a todo mundo um dia com muito amor, paz, luz e comida! Que o universo conspire sempre positivamente para todos! <3 p="">

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Chama negra

Sonhei que voava. Várias vezes tive esse sonho. Começo dando saltos leves e quando me dou conta, estou flutuando com graça; é a melhor sensação do mundo. Meus braços me norteiam e consigo sentir o ar suave percorrendo todo o meu corpo. Rodopio, dou cambalhotas, mas é tudo lento e sinto cada parte de mim sendo parte da matéria que não sou capaz de sentir como tangível.

Hoje, eu alçava voo em uma praia, em um fim de tarde febril e de céu azul acinzentado. Havia algumas pessoas ali e a garota de cabelos cacheados me olhou com admiração quando eu ascendi. Eu trajava um vestido preto, na altura dos joelhos, acinturado e de saia rodada; estava descalça. Fizeram-se pequenos redemoinhos de areia aos meus pés, e então essa areia tornou-se um rastro de purpurina dourada por onde eu ia passando.

Eu dava a mão a ela, queria tocá-la e trazê-la comigo para o ar, mas não consegui porque ela deveria ficar ali.

Agora me ocorreu que houve linda junção de elementos. A água da praia, a areia que é o chão, a terra; e o ar, que era onde eu, fogo, me propagava, como uma chama negra, feliz feliz feliz. Enquanto houver ar, me propagarei.

Há pouco vi uma coruja perto da praia. Nunca tinha visto uma coruja ao acaso. Ela era pequena, graciosa; olhou-me nos olhos e voou livre em direção a uma luz. Sincronicidade.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sonho de véspera de primavera

Às vésperas de primavera tocam músicas antigas em noites de chuva. Chove muito, chove pouco, mas não para de chover. Formam-se cachoeirinhas nos morros e a água que se acumula no asfalto reflete a luz artificial dos carros, dos postes e dos semáforos coloridos que piscam como luzes de natal pela madrugada.

A aranhazinha tece sua teia e enfia-se embaixo do guarda-chuva xadrez que a acompanha para não escorregar nas pedras molhadas. Dividem cigarros de filtro caramelo, bebida amarela doce e vagabunda; sobem morro, descem morro em direção ofensiva pelo dia que começa a surgir cinza pelos confins do céu que tem sua cor favorita.

São quatro olhos, que se olham, ofegam e se culpam por viverem as flores da primavera. Depois, a monstrinha corta a teia, mostra a língua para o guarda-chuva e se enfia na quentura da multidão agitada.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre a dor de existir

Quando eu era criança e minha mãe vinha pra me acordar todos os dias pra ir pra escola, eu fingia que estava em sono tão profundo que ela me chacoalhava com força – e eu fazia um enorme exercício pra controlar o riso -, mas não acordava. Enquanto ela tentava me despertar, eu ouvia as coisas que ela dizia: acho que vou levar essa menina no médico, não é possível que durma tanto!

Isso era só charminho, pra chamar atenção. Não gostava de dormir.


De ontem pra hoje, devo ter ficado na cama por umas doze horas. 


Acho que ela sempre me acompanhou de alguma forma; antes como uma sombra pequena, mas com o passar dos anos e com o desenrolar da vida, ela veio crescendo, e me tomando. Não queria que ela me tomasse dessa forma que, diga-se de passagem, foi muito safada. Infiltrou-se na minha vida como se fosse minha personalidade, meu jeito; como se fosse o que sou e irremediável a sua cura.


Minha mãe dizia que eu era fechada e eu não entendia o porquê disso. Via a mim mesma como uma pessoa extrovertida e bem-humorada e depois de um tempo achei que a minha rabugice era fruto da convivência com ela, que sempre fora uma pessimista nata, mas que nada, a sombra já a tinha tomado também.


Não sabia o que era depressão de verdade, até a minha adolescência, quando meu pai resolveu se enforcar pra dar cabo da dor e do sentimento de solidão que o habitavam. Daí vi quão profundo era o buraco. Daí vi até onde uma pessoa poderia ir pra aplacar o que a impede de ser feliz, de ser como todo mundo que é “normal”.


Me deprimi às vezes, fiz terapia, chorei rios, me questionei, procurei sentidos; quis morrer, desaparecer, e aparecer pra viver de novo. Tive lampejos de felicidade quente e outros nem tanto, mornos como a brisa do verão que sempre vem. Senti muito e também senti nada. Talvez no fundo, eu sempre soubesse que tinha isso e, por essa razão, não quisesse ter filhos. Não queria minha semente estragada por aí, sentindo dor. Não queria ter uma extensão de mim mesma dizendo que devo continuar, a qualquer custo.


O sentimento da falta de vontade, da falta de amor, da falta de razão continuou dentro de mim, como um verme alimentado pela mentira, pelo comodismo. Vamos lá, mexa-se! Levante esse corpo gordo da inércia e faça alguma coisa! Isso é o pior. A crítica que vem de você mesmo, sua consciência gritando no vazio de você, urrando por movimento e mudança, e você é incapaz de dar voz a ela. Letargicamente, deitada em uma cama, você não quer morrer, só quer que isso passe; você só quer dormir e acordar desse pesadelo.


Já tinha ido a psiquiatras diversos e os remédios se estragavam pela metade em suas caixas. Copo meio vazio, eu sempre via. Ainda assim, é um copo, ainda assim há algo dentro dele, não importa quanto.


Resisti a tomar remédios talvez por eles não terem sido capazes de ajudar meu pai, talvez porque minha mãe tenha tomado tantos deles que tenha ficado meio afetada, talvez porque eu achasse que poderia dar fim a tudo isso por conta própria, mas não é verdade.


Semana passada, clamei por ajuda, de novo, e desta vez decidi que vou agarrá-la da forma que for. Se ela vier em comprimidos, chás, pílulas ou diabo, a tomarei. Tenho quase trinta anos e uma filha. O tempo não vai voltar pra mim, como não voltará pra ninguém nessa terra. Meu bebê é quem melhor me cuida, ficando do meu lado e me fazendo carinho pra eu dormir por mais doze horas. Não é justo que ela cuide de mim, porque meu intento nunca foi o de ser um fardo para os meus.


Meu sonho de menina sempre foi o de ser especial, de ter uma missão especial por essas bandas, mas eu nunca pensei que viver fosse tão difícil. Semana que vem volto a estudar, porque cabeça vazia é oficina do diabo, é o que dizem.


No fim de semana passado, fui acolhida por uma prima com quem não tinha contato, e o que mais nos ligava era a dor de um ente fugidio dessa vida, cada qual com o seu. A dor nos aproximou e fui com ela e uma parte de sua família para seu sítio. Lá, conversamos, dividimos nossos fardos, comi comida de mãe, me meti no mato e vi um lindo céu estrelado com direito a duas estrelas cadentes. Não dá pra fazer pedido a elas, porque enquanto elas passam pelos nossos olhos em décimos de segundos, estamos ocupados vendo toda a beleza do universo, do qual também somos feitos.


O que me acalenta é saber que eu também sou o mato, as estrelas, a chuva e os montes. Eu sou todo mundo e todo mundo também é um pouco de mim e, assim, tudo e todos, somos um só.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Prelúdio gastronômico

Eu cozinho. Aprendi com a minha mãe. Antes dela ir trabalhar, escolhia feijão e colocava na panela de pressão; o meu trabalho era cuidar do feijão. Parece fácil, mas nem tanto, ainda mais quando você tem entre oito e dez anos e vive nos anos 90, assistindo ao programa satânico da Xuxa e esquecendo do almoço na frente da TV.
Perdi as contas de quantas vezes eu lembrava do feijão só quando já sentia o cheiro de torrado que vinha da cozinha. Era o maior desespero porque eu tinha que me livrar daquela merda, lavar a panela, escolher mais feijão, botar pra cozinhar de novo e fazer o cheiro de queimado se dissipar. Como eu só me dava conta de que ele estava queimando lá pelas 11h30, e já era quase a hora da minha mãe voltar pra casa, era praticamente certo que eu apanharia.
Acontecia o mesmo com o arroz, de quem eu deveria tomar conta com igual carinho, colocando água e esperando que ele ficasse no ponto.
E foi assim, entre panelas queimadas e chineladas que eu aprendi a cozinhar; na marra.
Tá, daí que não foi assim que eu tomei gosto pela coisa; o gosto pela coisa veio comendo as coisas, porque comida de mãe é sempre boa. Pelo menos a comida das mães de antigamente e, hoje, eu sou uma delas.
Acho uma vergonha gente que não sabe cozinhar. Acho uma vergonha gente que fala com orgulho que só sabe fazer miojo e mal e porcamente frita um ovo. Acho uma vergonha gente que acha bonito ser um zero à esquerda na cozinha. Porra, cozinhar é ser independente no sentido mais digestório da palavra; comer o que você mesmo prepara não figura independência e motivo de orgulho? Ser reconhecido por encher uma pancinha amiga com uma comidinha gostosa é o que há.
Quando fui ficando mais velha, minha mãe passou a me ensinar a cozinhar com mais didatismo; ela não me dava mais porradas, ela só me obrigava porque eu tinha que ajudar no almoço mesmo. De tanto fazer, você aprende; de tanto comer, você toma gosto. Ela me ensinou quase tudo do que eu sei. Não tem nenhum requinte, mas é muito bom. Arroz, feijão, salada de maionese, macarrão, lasanha, bifinho, strogonoff, farofa, madalena, creme de milho e vai embora... Minha cunhada também me ensinou umas coisas gostosas e gordas, que são mais gostosas ainda porque são gordas.
Claro que tudo a gente vai adaptando ao nosso gosto e ao que temos em casa na hora. Às vezes, a comida é de vadio, às vezes é mais ajeitadinha, mas o que importa é o tempero; tem que ter gosto, sabor, tem que encher a barriga e o coração. Tem dias que é foda e a comida fica uma bosta, mas nunca intragável, daí o coração não fica pleno, mas a barriga fica, o que já é alguma coisa.
E toda essa enrolação foi só pra dizer que farei um vídeo super profissional na minha cozinha industrial, dirigido pela minha filha linda e estrelado por esta que vos escreve apenas para ensinar aos leigos e amadores a receita, até então secreta, do maravilhoso creme de milho da D. Márcia.
Mas, subliminarmente, o vídeo é endereçado a minha amiga Thaís, que provavelmente cozinha muito melhor do que eu, mas que me pediu a receita do dito cujo. Já adianto que não uso medidas; é tudo na base do olhômetro e do bom senso.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A máquina

Noite dos diabos. Deito, rolo de um lado para o outro; tudo perturba. A criança que se move e faz barulho, os gatos aos pés da cama, brincando com a pequena boneca de cabelos espigados e batendo-a contra o assoalho, o calor do quarto, a quentura das cobertas que preciso usar para me sentir protegida da noite.

Na cabeça tudo vem. Tento me focar na minha respiração, que mais parece a de um animal asmático; inspiro, prendo, solto, prendo e faço de novo umas três vezes, mas os pensamentos me invadem. Penso que tenho de marcar uma consulta, penso que tenho de arrumar a casa, penso que tenho de escrever e daí penso penso na dor, penso na vida. Pensei tanto que não me apercebi quando o sono finalmente veio, uns quarenta minutos depois.

Acordo e estendo a roupa da máquina; resolvo colocar ordem no pardieiro que se tornou minha casa. Começo sempre pelas roupas, depois arrumo os livros de volta no lugar, esvazio os cinzeiros, guardo os pares de sapatos. Pego uma sacola plástica e saio pela casa recolhendo o lixo que se deposita por todos os cômodos; guardo papéis, coloco a bateria de volta na câmera fotográfica, troco a roupa de cama e tiro o pó dos móveis e objetos.

Daí, então, passo o aspirador e a vassoura em todo o apartamento, jogo o limpador cheiroso no chão e passo o pano, uma, duas vezes. Vou para o meu pesadelo maior, a cozinha. Há louça lá de duas semanas; todos os copos que tenho estão na pia e a sujeira já nem fede mais porque se liquefez. Até os vermes da lixeira da pia já morreram, secaram, reencarnaram e morreram de novo, tanto foi o tempo de dor.

Abro a geladeira, e jogo fora comidas estragadas, cristalizadas com suas colônias de bolor coloridas. Deixo-a limpa e lavo a panela de arroz que jazia no frio desde o último dia em que coloquei uma cobra dentro da minha casa. Ela arrastou-se por tudo, comeu e bebeu comigo e depois me deu o bote, mas é o que cobras fazem.

Limpo o chão, os vômitos secos de gatos mortos de fome. Limpo suas fezes na caixa de areia. Limpo minhas privadas, junto os cabelos e pentelhos do chão, tiro o ensebado dos vidros dos boxes, limpo as pias com restos de pasta de dentes e jogo fora a escova que não será mais usada.

Faço tudo isso expurgando a mim mesma, tirando de mim toda a sujeira que poderia haver, limpando minha casa e minha mente. Tentando desgastar a dor de existir com a rotina, com o mecanicismo, com o ocupar para não pensar, ocupar para fazer sentido, ocupar para poder ser.

Dói ainda, é fato, mas de tanto repetir isso, acabo por me imiscuir no meu todo. Sou meu corpo, minha mente, minha casa. E as coisas finalmente se ajeitam, até que estejam novamente uma bagunça e seja necessário mais um esforço demandante de movimento, que me tire da letargia e me lembre que mesmo que tudo pareça parado, a movimentação é contínua.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Hoje

Hoje, cortei meus pulsos de cima abaixo, fundo, com a navalha mais afiada que pude encontrar. Vi minhas veias pulsando o horror da vida doente, esguichando o sangue que corre em mim. Vi minha carne viva, minha dor latente, meu desejo de morte.

Hoje, lancei meu carro num precipício de terra batida e mato alto. Caí no mar do mundo. Afundei minhas expectativas enquanto a pressão da água quebrava os vidros e invadia os meus pulmões me fazendo sufocar. Vi peixinhos coloridos e percebi que o que há em cima é o mesmo que há embaixo.

Hoje, ateei fogo em mim mesma com a gasolina do posto que vende combustível a preços abusivos. Descobri que se matar sai caro, enquanto minha pele se desfazia caindo aos pedaços e eu sentia o cheiro de carne esturricada; enquanto as chamas me deformavam e eu gritava de desespero.

Hoje, me enforquei com um lenço bonito de bolinhas brancas, pendurado no batente da porta do banheiro. Asfixiei-me até que meus olhos ficassem vermelhos de sangue e minha língua azul e inchada para fora. Agonizei sapateando no ar, até que eu fosse embora.

Hoje, quebrei meus ossos e me espatifei quando me joguei lá de cima. Do alto de onde eu vim. Saltei para a liberdade do universo. Gritei vendo o chão à minha frente sem poder freá-lo. Mas não tirei os sapatos; não tinha intensão de fazê-lo.

Hoje, desisti dessa vida de miséria, rodeada de pessoas igualmente miseráveis e vis. Não tenho mais desculpas para continuar com o karma. A vida segue, sempre segue, não pode parar, nunca.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Carta de suicídio

A quem interessas possa, isto aqui é uma carta de suicídio.

Sempre que escrevo um texto, escrevo e por último coloco o título, mas este já tem o título de cara porque a decisão foi pensada com cautela, como deve ser quando você pretende dar fim a um sofrimento.

Devemos pesar sempre os prós e os contras da nossa vida, ver e rever conceitos, crenças e atitudes; foi o que fiz, na verdade venho fazendo há algum tempo já. E esta decisão que cabe somente a mim deverá me livrar do sentimento de angústia e tristeza que esta vida me causa. A gente se vicia na vida que leva e quando para para pensar, para vê-la de perto, não mais como um espectador, você, então, se dá conta de que não importa quantos anos você tenha, especialmente nesta vida, você ainda age como se fosse o umbigo do mundo. Você quer ser importante, todos querem. Você quer atenção, amor, afeto, afeição, carinho. Você quer milhares de coisas boas, mas quando você percebe que o seu vizinho quer o mesmo que você, então começa uma pequena e velada guerra de egos, de inveja pela conquista alheia, pela felicidade estática do outro, pelas viagens que os outros fazem, pelo reconhecimento que têm e que esfregam na sua cara 24/7. É triste admitir que somos todos diferentes, que nossos gostos não são cem por cento iguais, que nossas crenças se esbarram, que nossas ideologias diferem, que nosso orgulho é ferido e que o centro do mundo não somos nós; até somos, mas cada um é o seu.

É difícil de acreditar que todo mundo tem problemas e que cada um sabe exatamente onde dói o seu calo, onde o peso pesa mais nas suas costas, a despeito de toda a felicidade, autoajuda, autocomiseração, e mais um monte de coisas. Somos condescendentes demais com a gente, aceitando vidas de merda cercadas de pessoas que estão cagando e andando para gente, por mais próximas que elas pareçam. Cada um quer brilhar no seu quadradinho, mesmo que seja às custas de alguém, mesmo que seja de mentira, mesmo que quando você se desconecte da porra da rede a sua vida seja uma bela miséria.

Eu nasci aqui no dia 10 de abril de 2009, e o nascimento foi tímido porque não entendia como esse mundo funcionava e ele me parecia muito complicado e pouco útil. Quando larguei a outra vida para entrar nesta que parecia ser a vida em que todos estavam encarnando, eu não fazia ideia de que ela me tomaria tão inteiramente. No começo, não interagia; só via a vida alheia se desenvolvendo através dos meus "amigos", mas logo comecei a atuar também, como todo mundo.

Eram fotos postadas - vejam como sou jovem, feliz e boa fotógrafa! -, músicas postadas - vejam o meu gosto musical e como expresso meus sentimentos através de clipes -, frases postadas - vejam como tenho opinião para tudo -, textos, fotos, frases compartilhadas - vejam quem eu sou por meio de fotos, textos e frases que não são meus, mas que expressam toda a profundidade do meu ser e a indignação que tenho perante este mundo cruel -, páginas curtidas - vejam como sou cool e descolada e sigo quem é cool, engraçado, irônico e descolado na medida que me interessa e assim foi.

Fora os "amigos". Nem tenho muitos, mas eles são colecionados baseados em critérios muito rigorosos: conheço pessoalmente; parentes de 1° a 6° grau, incluindo os de vizinhos distantes; foram meus amigos no jardim de infância; estudei com eles no ensino fundamental/médio/superior, incluindo os fdp que nem gostavam de mim; trabalhei com eles no emprego de bosta que tive; dormi com eles, arghhh; vi uma vez em uma festa de relance, mas quis adicionar... É, talvez não sejam tão rigorosos assim, mas eu tinha que adicioná-los porque empilhar gente é poder nessa vida. São contatos, pessoas que fazem volume no espaço infinito da rede.

Dessa gente toda, se tenho contato frequente com vinte delas, é um número bem razoável... As outras todas servem para eu ver que vivemos todos em uma grande mentira cibernética que consome, entedia e vicia tristemente. Hoje, posso dizer com pesar enorme que sou viciada no Facebook e que isso não me traz quase nada de bom. Fiquei viciada em querer saber da vida dos outros, sem que isso represente qualquer benefício para a minha própria.

Talvez haja pessoas que façam bom uso da ferramenta e é bem provável que este não seja o meu caso. É claro que há coisas boas como reencontrar pessoas que não víamos há anos para que elas voltem a ser nossas "amigas" apesar de nunca se preocuparem em perguntar se você está bem ou vivo, mas elas estão ali na lista, porque amigos são para essas coisas! Há os "eventos" em que você pode ir, há as denúncias que você pode compartilhar, há as fotos fofinhas que você pode curtir, há as páginas que se encaixam perfeitamente ao seu estado de espírito e um monte de outras merdas legais. Mas enquanto eu vivo a vida de mentirinha que postam aqui o tempo todo, eu deixo de viver a minha própria lá fora, fora da linha.

O que me fez pensar mais tempo sobre morrer aqui ou não foi o fato de que eu poderia de alguma maneira divulgar o meu blog e para isso, o livro de rostos serve muito bem. Acontece que é mais fácil uma foto de um gatinho dormindo de barriga para cima ter mais curtidas e compartilhamentos do que o que eu escrevo, então não é uma grande vantagem para mim. Outra coisa que também me fez refletir foram justamente as imagens que eu vejo e que me despertam um enternecimento ou dor lancinante. Essas imagens me despertam emoções muito maiores do que as criaturas que passam o dia todo postando coisas estúpidas de autoajuda, autoaceitação e autocaralhoaquatro.

Mas agora, acho que já tomei minha decisão: as imagens que tanto me agradam serão salvas no meu computador para quando eu quiser vê-las e isso é sanado.

Quanto às pessoas, bom, aquelas que amo, respeito, tenho carinho, admiração e contato frequente, elas com certeza sabem que nada muda com a morte nessa esfera, pois o telefone, e-mail, e visitas ainda existem e estão aí para serem desfrutados. Àqueles por quem nutro carinho por terem feito parte da minha vida em alguma época dela, foi bom tê-los reencontrado, mas se não nos "falamos" via chat, curtidas e compartilhamentos, é provável que isso se dê porque hoje não temos mais nada em comum além do laço de amizade virtual que nos une e esse laço há que ser cortado porque não representa evolução na minha vida.

Agradeço a quem tiver lido isso aqui até o fim e será um grande sinal de consideração da sua parte.

Tenho quase certeza que menos de dez pessoas manifestar-se-ão a respeito, o que só comprova tudo o que já disse antes.

A quem fica, vida longa. Parto dessa para uma melhor e mais real, que é a minha vida. Não acredito mais em vida após a morte, mas ela, com certeza, existe após o Facebook.

Mais uma vez, a quem interessar possa, meu nome é Karla Cristina Fernandez Philipovsky Koerich, nasci em Florianópolis, tenho 28 anos, sou de leão e sou sua parente em algum grau, estudei com você em alguma série, fui ou ainda sou sua amiga próxima, dormi com você em algum momento escroto da minha adolescência, fui sua aluna em algum ponto da minha vida estudantil, vi você em alguma festa ou você é amigo de um amigo de um amigo, talvez eu nunca tenha visto você pessoalmente, mas achei que seria legal se fôssemos amigos, enfim...

Paz e luz a todos.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

A sorte


Quando você vive uma infância no meio de mudanças e incertezas de vários tipos, o que você mais quer é saber do futuro; mas não é só saber dele, você quer que ele seja doce, cheio de coisas boas, sólidas e felizes. Acho que foi daí que surgiu o fascínio pelas cartas, oráculos e afins.

A curiosidade,de fato, não brotou de mim sozinha; minha mãe ia a cartomantes e até pagava caro para ouvir o que elas tinham a lhe dizer e, parecia um preço razoável, já que sempre saía dos lugares com alguns bons agouros e outros nem tanto, pois quem já viu a sua sorte sabe bem que tem sempre alguém invejoso que aparece nas cartas; alguém quer roubar o seu dinheiro, o seu homem ou quer lhe passar para trás. A gente vive como consulente e as cartas nos prometem viagens, ganhos inesperados, perdas repentinas e amores duradouros, e acreditamos nisso porque se o nosso presente já é um mar de dificuldades e incertezas, cremos então que o futuro nos reserva algo muito melhor e, com isso, vamos engolindo em seco os obstáculos duros até chegar ao dia da recompensa prevista.

D. Avani era avó de um aluno da minha mãe na escola e era ela que pagava as mensalidades do neto só lendo cartas para pessoas curiosas e em apuros. Era uma senhora magra, de cabelos curtos meio grisalhos e que ia até a nossa casa para ver o nosso futuro. Ela não via a sorte em baralhos ciganos ou coisas desse tipo; via tudo em uma baralho de cartas mesmo, desses que as pessoas jogam fazendo apostas e que só depois de muitos anos descobri que foi o tarô que deu origem a ele e não o contrário. O baralho dela era um grande maço de cartas gastas e gordas de tanto manuseio. Ela lia e via e interpretava. As cartas não mentem é o que dizem. Minha mãe gostava tanto das previsões que vira sua sorte com a senhora umas três ou quatro vezes em menos de um ano. A mulher era boa e recomendada até para familiares com anseios casadoiros. Viu até a minha sorte e olhe que na época eu tinha onze anos e um futuro em branco, exceto pelo fato dela ver que em breve eu ficaria mocinha. Ela previu isso para um ano novo e me alertou para ficar atenta e não sujar roupas brancas.... Minha menarca veio pelos idos de março do outro ano, se não me engano, depois de chegar em casa da escola achando que estava com dor de barriga ao invés de cólicas.

Queríamos tanto saber do futuro, que minha mãe via o dela pelo telefone, porque minha tia tirava as cartas para ela a quase dois mil quilômetros de distância, pagando interurbanos caros, mas que rendiam dias de alívio pelo futuro.

Não sei quando foi, mas minha tia, a quem eu chamava de tia bruxa, ensinou minha mãe a ver as cartas de Lenormand e logo ela me ensinou também e víamos quase todos os dias, como forma de solucionar os nossos problemas. O tarô era uma baliza, nos mostrava o que viria até nós e quem eram as pessoas que estavam ao nosso redor. Ficava guardado na sua própria caixinha e era sobre a cama que dormíamos que o futuro repousava. De pernas cruzadas sobre o colchão ondulado, íamos tirando as cartas, fazendo perguntas, tirando dúvidas e tendo certezas.

A sorte que eu via para ela e a que ela via para mim não era das mais certeiras, mas quando víamos para pessoas de fora, acertávamos muitas coisas. Eu, com doze ou treze anos, fiz amizade com a dona de uma loja de produtos esotéricos do shopping da cidade onde morávamos e lá, comecei a ver a sorte dela e de clientes da loja. Cobrava cinco reais e elas gostavam tanto dos resultados que, em uma semana, cheguei a ganhar quarenta e cinco reais pelos meus serviços. Era aquela coisa: embaralha, corta, embaralha de novo, faz montinhos e vai virando as cartas, de maneira que o panorama se formava em volta da carta da consulente e a gente já sabia se vinham coisas boas ou não.

Nisso, os anos se passaram. Nos consolávamos com as nossas previsões, mas adorávamos as dos profissionais. Eram filas de espera e conversa com outros que esperavam como nós a dizer que o fulano era muito bom, que viu isso, que adivinhou aquilo e transbordávamos de esperanças para saber de toda a glória que nos aguardava.

Lembro de uma famosa D. Lola em que minha mãe fora e que era a cartomante preferida dos políticos da cidade; disse ela que eu engravidaria com quatorze anos e que seria uma grande decepção para a minha mãe. Ela quase acertou, não fossem por quatro anos de diferença. Se acreditasse em todas as cartomantes em que já fui, teria tido uns cinco filhos, porque elas sempre viam muitos deles. Fora aquelas que além de verem as cartas, indicavam banhos com ervas e coisas do tipo. Minha mãe fazia, porque olho grande sempre tinha, ela achava. No mundo da sorte, estamos sempre rodeados por amigos da onça, mas acho que é em qualquer mundo mesmo...

Então, de sortista em sortista, de baralho em baralho, fomos vivendo os anos. Eu já tinha o meu próprio e os amigos me pediam que "tirasse" a sua sorte, e eu dizia que não tirava a sorte de ninguém, via.
Alguns anos atrás, fui à casa de uma senhora que atendia no seu quarto, sobre a sua cama, da mesma maneira que minha e mãe e eu fazíamos. Nunca tinha visto a mulher mais gorda na vida e quando eu fui cortar o monte de cartas ela pegou na minha mão e disse: "Você tem o dom" e eu fiquei de boca aberta porque não mencionei qualquer coisa e ela sabia que eu via cartas. De tudo o que ela me disse, nada deu em alguma coisa, mas só pelo que ela falou sem ver carta alguma, fiquei besta com a mulher. Nunca acreditei que era guiada por alguma entidade ou coisa parecida. Muitas cartomantes se dizem guiadas por espíritos, entidades, ciganas e o diabo a quatro, mas eu sempre segui somente as cartas e o que eu achava que elas queriam dizer.

De uns anos para cá li mais a respeito, aprendi algumas coisas e faz muito tempo que não jogo meu tarô cigano. Até fiz um curso uns dois anos atrás, e a senhora que o ministrava foi outra que disse que eu sei jogar. Ela e uma quiromante me disseram que há uma cigana perto de mim, mas nunca acreditei. Aliás, já acreditei em muitas coisas; hoje estou tão cética com quase tudo que me sinto chata e presa ao mundo real. Pessoas próximas a mim já me falaram que eu deveria voltar a ver a sorte das pessoas, que deveria desenvolver esse lado oculto, que muitos outros que conheci diziam que era um lado ruim, que isso era macumba, bruxaria e sempre achei graça.

Meu mapa astral diz que eu devo estudar essas coisas, pois minha intuição é muito forte e meu lado sensitivo tem que ser explorado, mas como disse, já não acredito mais.

Hoje vejo o baralho não como um oráculo do futuro, mas como um oráculo que mostra o que temos dentro de nós, expressando através das cartas as nossas angústias, perspectivas e desejos. O baralho aflora nosso interior e deixa mais claro aquilo que não entendemos acerca do que nos é mais profundo.

A sorte, o futuro, as reviravoltas da vida estão todos no próximo segundo e nos que vêm depois dele.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pequenina fábula da leoa que se sente pulga


Deveria ser uma leoa, de juba bem cuidada e esvoaçante; daquelas com andar elegante, porte de rainha e fino trato. Deveria ser daquelas leoas que ruge alto sem perder a serenidade ao olhar para savana; daquelas que se movem feito gatinhas para dar grandes botes feito cobras. Deveria ser uma leoa típica como as outras que nascem no inverno dos trópicos, na época das férias da escola e do frio convidativo. Deveria ser como as leoas que são agressivas e generosas; daquelas que olham para o sol, seu regente, e conseguem se ver nas labaredas do fogo astral. Deveria ser magnânima e dourada, como são as leoas, felinas, leoninas.

Deveria ser tudo isso, mas se vê apenas como um bichinho; bem pequenino. Vê-se insignificante, com pernas cheias de teias de aranha, que crescem e formam hematomas. Suas fuças são manchadas e com algumas rugas e pelos que não deveriam estar ali; a pele é flácida e sob ela se encontra amarela camada de gordura que não se queima. Acha que é uma preguiça, mas preguiças são graciosas e têm expressão risonha. Além disso, esses animais preguiçosos são grandes perto dela, que é como um tisco.

Fácil de ser pisada, magoada, trapaceada, feita de boba. Apesar de ver a si mesma como um quase nada, ainda chora quando vê um animalzinho dando a mão para outro que precisa. Ela já foi grande feito pessoa, mas foi se esfacelando com o tempo, até só sobrar o pedacinho. Ela já foi leoa brilhante com todos os seus defeitos e virtudes, mas é que agora sobraram só os defeitos; uma amargurinha aqui, uma grosseriazinha acolá e nisso, ela perdeu todo o brilho que em um dia tão distante já tivera.

A savana foi crescendo e muitos outros animais surgiram e todos eles pareciam mais felizes do que ela. Todos eles parecem mais felizes do que ela, filha de um touro teimoso e ligado a terra e de uma carangueja que anda para os lados e ligada ao mar - ao mais profundo dele, onde ficam as emoções que todos escondemos na nossa essência...

É filha de terra e água, mas não é ela lama suja; é faísca oscilante que quer vida, que quer muito mais do que só fazer coçar como todas as outras pulgas, mas, triste, sente-se pequenina feito uma pulga vulgar que passa pelo mundo despercebida.