sábado, 22 de outubro de 2011

Kobrasol: diversão, a gente vê por aqui

Pouco antes da uma da manhã, estava eu sentada aqui, olhando pras paredes, quando decidi que teria uma noite feliz. Troquei de roupa ouvindo The time of my life, peguei uns trocados e saí, lépida e fagueira pelo bairro, disposta a bater papo com quem aparecesse. O problema é que fui andando, e não via ninguém. Rua deserta, esquina, nem uma alma; andei em direção à praça do vovô. Cheiro de maconha, barzinho aberto, comprei uma Coca. Continuei andando, passei pela avenida central e fui em direção ao prédio onde morei. Ninguém. Que coisa! Quando a gente quer conversar com alguém, nunca aparece um sujeito! Até que indo, indo, indo, vejo mais à frente um grupo de travestis. Passei por elas, pelo outro lado da rua, pensei um pouco e voltei. É aqui que vou começar a conversa!

Abordei-as com um "oi!" e elas "oi!" pra mim. E a loira virou pra morena e disse: "Ela parece aquela amapô que eu te falei". Daí, então, perguntei seus nomes. A loira, de 29 anos, olhos verdes, esguia, bonita e espevitada se chamava Bruna; a mais alta e mais nova, com 21 anos, era a Talita e a Gabriela estava tentando chegar num cliente quando eu perguntei a idade delas, então não sei quantos anos tinha, mas ela parecia ser a mais velha.

Elas me perguntaram o que eu fazia sozinha na rua àquela hora, e eu disse que estava passeando. Perguntaram onde estava o meu marido (hahaha) e eu disse que não tinha um, daí começaram o discurso da maneira mais engraçada que eu já vi. "Isso aí, não tem marido, não! Homem só serve pra incomodar." "Tem que usar e jogar no lixo, que nem latinha de refrigerante!". Eu ri.

Bruna tomava uma cerveja com canudinho e ficava se esfregando em uma placa, como se estivesse dançando . Adorei ela! A Talita era "casada" e o marido dela ficava do outro lado da rua, meio escondido pra não espantar a freguesia. Eu perguntei se ele não se incomodava dela estar ali, ao que ela me respondeu que não. Óbvio que não se incomodava, né Karla? Se ele se incomodasse, não deixaria ela fazer ponto enquanto ele comprava balinhas de canela pra depois nos oferecer gentilmente.

Gabriela era a mais ocupada de todas, pois cada carro que parava, ela ia ver se conseguia ganhar algum cliente, e olhe que pararam muitos carros! Um carinha passou do outro lado da rua, a pé, e a Bruna gritava, chamando-o, "Oh, tem cu mas também tem pombinha", apontando pra mim. Eu ria e ria mais um pouco! Perguntei a ela se o fato de eu ficar ali não as atrapalhava, e ela disse que não; só se fosse homem, porque segundo ela, se fosse um homem, os clientes não parariam, pensando que seriam roubados.

Fui chamada de "visita" por elas e a Talita provocava Bruna porque ela tinha um problema de dicção com os "erres". Curiosa que sou, perguntei quanto custava um programa. Oitenta reais no motel, cinquenta no carro e o boquete variava entre vinte e trinta reais, dependendo da cara do cliente. Disseram que os caras com os carros mais simples são os que pagam melhor, porque os que têm carros mais chiques só andam com cartões de crédito. Disseram que dormiam o dia todo pra aguentar à noite.

Despedi-me daquela esquina com cheiro adocicado dizendo que ia à padaria, mas que voltaria logo.

E foi na padaria que eu conheci o Seu Juca; um senhor negro que usava um terno puído, tinha olhos inocentes e gestos de abstêmio, apesar de nem um cheiro de bebida. Ele estava sentado na calçada e me pediu um real e cinquenta pra tomar um café. Dei-lhe dois reais e sentei ao seu lado. Perguntei o seu nome, disse o meu e começamos a conversar. Ele me perguntou de onde eu era; disse que daqui mesmo. Ele falou que conhecia o Kobrasol desde a época em que o Mc Donalds ainda nem existia, era um campo de futebol, e acho que foi nessa mesma época que eu morei aqui pela primeira vez; coisa de vinte e um anos atrás.

Disse que passou a adolescência em Curitiba e insistiu que o edifício Joelma, que pegou fogo anos atrás, ficava lá e não em São Paulo. Falamos sobre os nomes engraçados dos bairros de lá, como Bacaxeri. Falamos do clima e ele me perguntou se eu gostava de praia; sim, a da Solidão. Ele achou que eu morava no Bosque das Mansões, falou de um prédio bonito e envidraçado que ficava em frente à praça Tiradentes, e que havia um igual a ele em Joinville. Então nos despedimos e ele me estendeu a mão. Cumprimentei-o e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo, e realmente foi.

Quando me levantei, começou uma baita briga na esquina, na "cachaçaria". Umas mulheres berravam no meio da rua e eu me afastei, indo em direção à esquina onde antes estavam as minhas novas conhecidas, mas elas haviam ido embora. Voltei pra avenida e a briga só tinha aumentado. Os gritos continuavam. Dois caras enormes e sem camisas estavam descontrolados. Eu parei, longe, pra ver o que estava havendo.

Alguém chamou alguém de macaco. A confusão continuou e continuou. As mulheres gritavam, mas já estavam do outro lado da rua, quando na frente do tal lugar, outras duas começaram a discutir e a se engalfinhar. Juntou-se um monte de gente e um cara foi socado e chutado até cair. Os vizinhos do lugar estavam todos nas janelas e mais de cem pessoas na rua, vendo, correndo pra apartar e acompanhando toda a celeuma.

Nisso, os carros que passavam em frente iam parando pra ver a briga, as motos passavam acelerando motores, fazendo muito barulho e o buzinaço começou. No meio de tudo, a histérica do começo da briga continuava gritando loucamente. Era o caos! Uns dez minutos depois, pela mão única da avenida, ouvi as sirenes de um carro da Polícia Militar. Os carros que estavam na frente subiram na calçada pra que a viatura passasse. Parou mais adiante, mas o tumulto continuou.

Um minuto depois, o que vinha já era um camburão que, acho, era de Operações Táticas, pois era o que estava escrito nele. Esse já veio bem mais agressivo, passando por cima da calçada a mil por hora. Parou rapidamente, e dele desceram três policiais com enormes porretes, armas pesadas que eu não saberia identificar, mas que certamente davam medo, e até com uma arma daquelas que servem pra lançar bombas de gás.

Guerra civil? Hehehe, quase. Logo os machões viraram cordeiros, as pessoas começaram a sair do tal muquifo feito formigas que saem do ninho depois de alguém enfiar uma vareta nele, e a louca lá continuava gritando (!!!).

A paz (?) voltou a reinar  neste bairro que eu tanto amo, e eu vim pra minha casinha contar tudo isso a vocês.

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