terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não sei por que, mas 10 x 7

Quando eu era pequena, às vezes tinha uma sensação que me incomodava muito; em alguns momentos, parecia que tudo à minha volta acelerava, tudo acontecia muito rápido, as pessoas, os movimentos, as coisas, tudo se mexia em uma velocidade maior e aquilo me dava uma enorme agonia, porque era como se eu estivesse devagar diante de tudo.

Outra coisa que me deixava desconfortável, mas que acontecia nos meus sonhos, é que, com certa frequência, sonhava com uma claridade tão forte que eu não conseguia abrir meus olhos; eles ardiam e a minha cabeça doía, e nos sonhos, eu ficava impaciente, porque dentro deles se passava considerável tempo, e eu era obrigada a andar com os olhos cerrados, me sentindo importunada pelo clarão.

Mas o ponto não é esse, o ponto é que hoje, andando pela rua, de repente senti como se todas as coisas tivessem um destaque maior dentro do ambiente, tudo. Duas vezes senti o cheiro da minha infância. Primeiro, senti o cheiro do meu pai, depois senti o cheiro de um chiclete paraguaio que mascava quando era menor. É incrível como a rua me leva a lugares que estavam guardados há muito tempo. Cruzei duas vezes, em dois pontos diferentes do bairro, com a mesma garota que usava tênis cor de violeta. Passei em frente a um salão de beleza e vi uma senhorinha que, apesar de toda a decrepitude estampada em si, tinha os cabelos emplastados de tinta, na tentativa de esconder todos os anos que já tinha vivido. Vi uma menina, parada, atrás de uma linha branca, feita no chão de uma das pracinhas daqui. Ela olhava pro nada e esperava o momento de cruzar aquela linha, quando sua mãe séria, veio e a levou. Ouvi o barulho ritmado de marteladas, e vi a água que escorria pela sarjeta. Tudo muito vivo, muito singular.

Ontem, depois de piscar, abri os olhos e não podia parar de rir; eu ria, ria, ria e não havia nada de engraçado, mas eu ri tanto que babei; ri descontrolada; ri e não conseguia falar. Do meu lado direito, tudo girava, e eu ria. Depois, fechei os olhos e um enorme leque de plástico transparente amarelo se colocou sobre o céu, ele cobria tudo, dava ares de verão, de calor ameno; eu mexia minha mão para um lado, e era pra lá que o leque cobria o céu; eu fazia isso para o outro lado, e o leque seguia minha mão. Eram as minhas mãos que controlavam o céu, e eu sentia toda a minha parte frontal formigar; me via em sonho. Então eles apareceram, meu pai e minha mãe, vieram em minha direção e falaram comigo carinhosamente, como se eu fosse uma criança, cada um deles tomava uma de minhas mãos e me levavam pra algum lugar que eles diziam ser bom. Por trás da parte que formigava, lá estava a minha consciência, me segurando, me impedindo de ser, dizendo que era tudo mentira. E, assim, acabou.

Ontem também, descobri que tenho uma prima que me lê, do lado paterno. Ela me procurou, disse que gostava do que eu escrevia, disse que se dava muito com meu pai, e que ele falava muito em mim. Em algum momento, antes de se perder em si mesmo, ele deve ter falado de mim, acho. Ela disse que ele ficaria orgulhoso, mas acho que não. Certamente ele ficaria chocado. Enfim, disse ela que se orgulhava de ser minha prima. Fiquei feliz por saber que uma pessoa, que eu sequer sabia que existia até ontem, se orgulha de mim. Tenho função no mundo?

Depois disso, recebi um e-mail com o convite para participar de uma constelação familiar, e no fim de semana conversamos sobre isso, não é? A primeira pessoa que me falou a respeito do assunto tem o mesmo nome da segunda pessoa que falou comigo sobre; uma é família, a outra é amiga. Isso é destino, coincidência ou conspiração? A gente, então, decidiu que vai se aventurar, se expor, e expurgar o que for possível.

E hoje, ah, hoje foi bonito. Hoje, vieram tantas coisas que as mãos dela ficaram quentes, fiz ela suar com o tanto de energia que entrou em mim. Ela viu nas minhas costas um lobo muito bonito e um delicado veadinho também. Li algo a respeito, e gostei dos significados. O lobo representa amor, relacionamentos saudáveis, fidelidade, generosidade e ensinamento. O veado denota delicadeza, sensitividade, graça, alerta, adaptabilidade, coração/espírito, gentileza. Oh sim, existe o bem em mim. E lembrei da cadela do vídeo, Mishca, linda, uivando, e lembrei do cachorro mais lindo que tivemos, nosso lobo, Zowie, querido devorador de gatos. Lobos são leais...


Mas nem tudo foi bom. Vi nitidamente uma briga. Nós dois em frente a um espelho. Me dava de dedo na cara, irado com a minha falta de compreensão, porque era inadmissível. Em frente a um espelho oval, apoiado em uma penteadeira, a mesma que vi no sonho em que eu era baleada no pescoço. O que se reflete nisso tudo? O que estamos projetando?


Ela me disse que há omissão, foi essa a palavra que ela ouviu de alguém. Há mais de uma pessoa dentro do corpo, e uma delas eu não conheço, porque ela se esconde, não se aceita, não se admite pra ninguém. Mas disse também que eu perceberei certas coisas nessa pessoa, e que os véus serão tirados dos meus olhos, e então, eu verei que não existe mais nada a agregar, e conseguirei me libertar do que me faz sofrer hoje.


Bolha de luz azul, bolha de luz violeta.


Ontem conheci alguém que me deixou feliz, porque pude conversar e dar um pouco do que tenho sido ensinada. Por isso agradeço, mas ainda acho que preciso de um gravador.

sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre ser mãe (vídeo)

Espero que vocês consigam entender tudo, porque eu chorei no meio do caminho...

http://www.youtube.com/watch?v=EoeWwQEIUs0

Kobrasol: diversão, a gente vê por aqui

Pouco antes da uma da manhã, estava eu sentada aqui, olhando pras paredes, quando decidi que teria uma noite feliz. Troquei de roupa ouvindo The time of my life, peguei uns trocados e saí, lépida e fagueira pelo bairro, disposta a bater papo com quem aparecesse. O problema é que fui andando, e não via ninguém. Rua deserta, esquina, nem uma alma; andei em direção à praça do vovô. Cheiro de maconha, barzinho aberto, comprei uma Coca. Continuei andando, passei pela avenida central e fui em direção ao prédio onde morei. Ninguém. Que coisa! Quando a gente quer conversar com alguém, nunca aparece um sujeito! Até que indo, indo, indo, vejo mais à frente um grupo de travestis. Passei por elas, pelo outro lado da rua, pensei um pouco e voltei. É aqui que vou começar a conversa!

Abordei-as com um "oi!" e elas "oi!" pra mim. E a loira virou pra morena e disse: "Ela parece aquela amapô que eu te falei". Daí, então, perguntei seus nomes. A loira, de 29 anos, olhos verdes, esguia, bonita e espevitada se chamava Bruna; a mais alta e mais nova, com 21 anos, era a Talita e a Gabriela estava tentando chegar num cliente quando eu perguntei a idade delas, então não sei quantos anos tinha, mas ela parecia ser a mais velha.

Elas me perguntaram o que eu fazia sozinha na rua àquela hora, e eu disse que estava passeando. Perguntaram onde estava o meu marido (hahaha) e eu disse que não tinha um, daí começaram o discurso da maneira mais engraçada que eu já vi. "Isso aí, não tem marido, não! Homem só serve pra incomodar." "Tem que usar e jogar no lixo, que nem latinha de refrigerante!". Eu ri.

Bruna tomava uma cerveja com canudinho e ficava se esfregando em uma placa, como se estivesse dançando . Adorei ela! A Talita era "casada" e o marido dela ficava do outro lado da rua, meio escondido pra não espantar a freguesia. Eu perguntei se ele não se incomodava dela estar ali, ao que ela me respondeu que não. Óbvio que não se incomodava, né Karla? Se ele se incomodasse, não deixaria ela fazer ponto enquanto ele comprava balinhas de canela pra depois nos oferecer gentilmente.

Gabriela era a mais ocupada de todas, pois cada carro que parava, ela ia ver se conseguia ganhar algum cliente, e olhe que pararam muitos carros! Um carinha passou do outro lado da rua, a pé, e a Bruna gritava, chamando-o, "Oh, tem cu mas também tem pombinha", apontando pra mim. Eu ria e ria mais um pouco! Perguntei a ela se o fato de eu ficar ali não as atrapalhava, e ela disse que não; só se fosse homem, porque segundo ela, se fosse um homem, os clientes não parariam, pensando que seriam roubados.

Fui chamada de "visita" por elas e a Talita provocava Bruna porque ela tinha um problema de dicção com os "erres". Curiosa que sou, perguntei quanto custava um programa. Oitenta reais no motel, cinquenta no carro e o boquete variava entre vinte e trinta reais, dependendo da cara do cliente. Disseram que os caras com os carros mais simples são os que pagam melhor, porque os que têm carros mais chiques só andam com cartões de crédito. Disseram que dormiam o dia todo pra aguentar à noite.

Despedi-me daquela esquina com cheiro adocicado dizendo que ia à padaria, mas que voltaria logo.

E foi na padaria que eu conheci o Seu Juca; um senhor negro que usava um terno puído, tinha olhos inocentes e gestos de abstêmio, apesar de nem um cheiro de bebida. Ele estava sentado na calçada e me pediu um real e cinquenta pra tomar um café. Dei-lhe dois reais e sentei ao seu lado. Perguntei o seu nome, disse o meu e começamos a conversar. Ele me perguntou de onde eu era; disse que daqui mesmo. Ele falou que conhecia o Kobrasol desde a época em que o Mc Donalds ainda nem existia, era um campo de futebol, e acho que foi nessa mesma época que eu morei aqui pela primeira vez; coisa de vinte e um anos atrás.

Disse que passou a adolescência em Curitiba e insistiu que o edifício Joelma, que pegou fogo anos atrás, ficava lá e não em São Paulo. Falamos sobre os nomes engraçados dos bairros de lá, como Bacaxeri. Falamos do clima e ele me perguntou se eu gostava de praia; sim, a da Solidão. Ele achou que eu morava no Bosque das Mansões, falou de um prédio bonito e envidraçado que ficava em frente à praça Tiradentes, e que havia um igual a ele em Joinville. Então nos despedimos e ele me estendeu a mão. Cumprimentei-o e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo, e realmente foi.

Quando me levantei, começou uma baita briga na esquina, na "cachaçaria". Umas mulheres berravam no meio da rua e eu me afastei, indo em direção à esquina onde antes estavam as minhas novas conhecidas, mas elas haviam ido embora. Voltei pra avenida e a briga só tinha aumentado. Os gritos continuavam. Dois caras enormes e sem camisas estavam descontrolados. Eu parei, longe, pra ver o que estava havendo.

Alguém chamou alguém de macaco. A confusão continuou e continuou. As mulheres gritavam, mas já estavam do outro lado da rua, quando na frente do tal lugar, outras duas começaram a discutir e a se engalfinhar. Juntou-se um monte de gente e um cara foi socado e chutado até cair. Os vizinhos do lugar estavam todos nas janelas e mais de cem pessoas na rua, vendo, correndo pra apartar e acompanhando toda a celeuma.

Nisso, os carros que passavam em frente iam parando pra ver a briga, as motos passavam acelerando motores, fazendo muito barulho e o buzinaço começou. No meio de tudo, a histérica do começo da briga continuava gritando loucamente. Era o caos! Uns dez minutos depois, pela mão única da avenida, ouvi as sirenes de um carro da Polícia Militar. Os carros que estavam na frente subiram na calçada pra que a viatura passasse. Parou mais adiante, mas o tumulto continuou.

Um minuto depois, o que vinha já era um camburão que, acho, era de Operações Táticas, pois era o que estava escrito nele. Esse já veio bem mais agressivo, passando por cima da calçada a mil por hora. Parou rapidamente, e dele desceram três policiais com enormes porretes, armas pesadas que eu não saberia identificar, mas que certamente davam medo, e até com uma arma daquelas que servem pra lançar bombas de gás.

Guerra civil? Hehehe, quase. Logo os machões viraram cordeiros, as pessoas começaram a sair do tal muquifo feito formigas que saem do ninho depois de alguém enfiar uma vareta nele, e a louca lá continuava gritando (!!!).

A paz (?) voltou a reinar  neste bairro que eu tanto amo, e eu vim pra minha casinha contar tudo isso a vocês.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Gracias!

Foram 134 acessos. Este humilde blog nunca tinha visto tanta gente num único dia.

Triste foi que, só para variar um pouco, quase ninguém comentou. Algumas pessoas deixaram comentários aqui e outras no Facebook.

Os pedidos não foram muitos, mas o que ganhou com a maioria esmagadora de dois (!!!!) votos foi A Besta.
E pra ele, eu já fiz um vídeo, mas a bateria da câmera acabou e está carregando agora... vai levar um tempinho então.

Os outros pedidos foram Eu Quero, Como Foi pra Mim, A Punheta de Todo Dia (não poderia faltar) e ... .

Esses eu vou colocando ao longo dos dias.

Adorei os comentários e por eles terem sido tão afetivos, continuarei escrevendo até que os meus dedos caiam. =P

Falando Sem Desculpas

Assistam e dêem sugestões, please!

http://www.youtube.com/watch?v=6WO4iSAchkw

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A quem me lê

Queridas pessoas que me lêem,

eu nunca fui muito esperta pra mexer em certas coisas, como neste blog.
Não sabia, por exemplo, que as estatísticas dele eram relativamente confiáveis. Só descobri isso uns poucos meses atrás.

Graças a elas, descobri também que o meu post mais acessado era este, e que as pesquisas por palavras-chave também traziam os punheteiros até aqui. Isso me leva a crer que os meninos não estão muito bons no esporte, o que é triste, pois se buscam informação por punheta, imagino que não saibam nem onde fica uma boceta, mãããs, falar sobre isso não é o objetivo deste post.

Prosseguindo, descobri também que pessoas de várias nações já me visitaram! =] Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Angola, Holanda, Polônia, Rússia e Canadá. Só não fico mais feliz porque gente de qualquer parte do mundo bate punheta... =(

O fato é: se você se desprende, de seja lá o que for que estiver fazendo, para vir até aqui e ler o que eu tenho a dizer, então peço que, por favor, diga o que acha!

Há várias opções de elogios e também de ofensas, mas o silêncio é brochante...

Espero grandes colaborações, como:
"Nossa, não sei como você ainda não ganhou um Nobel de literatura."

"Você é tão boa que vou te citar no meu TCC."

"Você me entende como ninguém... casa comigo?"

Mas também aceito as críticas construtivas:
"Quem foi que disse que tem alguém interessado na sua vida de merda?"

"Você escreve pior do que eu."

"Por que ainda mantém essa joça ativa?"


Todas as opiniões são bem-vindas, mas é claro que eu prefiro as que enaltecem o meu talento esplendoroso e toda a minha fluidez textual. De qualquer forma, sintam-se impelidos a me dar um feedback. Ah, eu também adoraria escrever sobre algo sugerido por vocês. Motes me motivam, vejam só.

Com carinho e esperando milhões de comentários,

Cristina FernandeZ

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Na caçamba, o desejo e a vergonha

As noites não são mais as mesmas. Sinto todo o tipo de agonia. Se me cubro, sinto  calor; se me descubro, sinto frio. Reviro-me pelos sonhos macabros. Sonho muito, sonhos variados. Havia falta de água ou excesso dela numa escola. Andava pela rua, passava em uma farmácia e comprava incontáveis produtos, não sei ao certo o que eram, mas me eram muito agradáveis às vistas. Quando saía, à esquina, via um amontoado de gente que estava parada, mas não com o mesmo espanto que eu.

O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.

Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?

Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.

O dia A

O dedo está melhorando, mas ainda há pus e todo o aspecto nojento. Ele já deveria ter sarado, mas só notei a importância de usar um antisséptico depois de usá-lo. Achei que sararia sozinho, como das outras vezes, mas como essa espetada, especificamente, eu causei esperando grandes dores, foi o que eu tive.

Amanhã é o dia da purificação; tarôs e mapas de previsão me avisaram que ele chegaria, então vou ficar bem.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A besta

Desencravei a unha do dedão do pé direito e agora ele lateja. Não, não desencravei, eu descolei uma lasca de pele rente à unha. Há a inflamação. O pus com a carne viva. A área quente pulsa e dói, muito. Mas quantas vezes já fiz isso? O prazer da dor. Dor e prazer são a mesma coisa, não é? Isso faz dias e ainda dói, parece que está pior; forma-se a ferida, mas ela custa a cicatrizar. Antes que sare, ela incha, deforma.

Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.

Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.

Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?

Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?

Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.

Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.

Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.

Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.

Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.

Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.

Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...

Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.

Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.

Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.

Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.

Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.

Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.

Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.

Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.

Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.

Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.

Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.

A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Legião

Tenho medo de dormir. Fico com os olhos arregalados diante da luz do monitor; meu corpo não se aquieta e tenho medo de dormir. Medo porque sei que no meio da madrugada, meu coração vai dar pulos tão fortes que vou ter a sensação de que me salta à boca, e isso me desespera.

Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.

Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.

O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.

Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!

Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.

Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.

Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.

Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.

E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.

Orai e vigiai.

Parei

Parei de fumar ontem e lembro dos cigarros constantemente. Joguei um maço deles, fechado, no lixo da cozinha, que já está cheio, e quando me bate uma fissura, penso em resgatá-lo pra poder dar uma tragada. Isso é burrice, sim ou claro?

Fumei durante onze anos, variando as quantidades e os malefícios. Sendo eu asmática, e sedentária até o último fio de cabelo, o que me restou foi sonhar com longas corridas, nas quais eu nunca me cansava e conseguia dar passadas enormes, pulos, quase uma decolagem em busca de um prazer tão simples quanto o de correr.

Eu não corria, eu morria subindo escadas e, graças a um ex-namorado hipocondríaco, hoje não consigo me ver sem uma bombinha de Aerolin e, com o tempo, a coisa só piorou; a casa fedia, meu carro fedia, eu nunca tinha dinheiro trocado, eu tinha tosses que duravam semanas e que me faziam parecer com o Mutley; eu tinha as pontas dos dedos manchadas, o hálito comprometido, as roupas defumadas, a cobrança da filha, as propagandas negativas, os olhares condenadores, a falta de ar, o pigarro... 

Acontece que eu não dava a mínima pra nada disso. Fumar era um gozo. Uma gozada boa e demorada no meio da chuva de ansiedade, preguiça, ira e alienação.

Fumar é bom pra caralho. Nunca vou negar isso. O ato é de reflexão, simbólico. Eu viajava no barulho do atrito que a pedrinha do isqueiro fazia para que a chama surgisse; eu contemplava a fumaça que serpenteava o ar; eu admirava as brasas que iam comendo o papel e o fumo com seu calor. Era um tesão.

Quem fuma sabe que uma boa conversa ou uma boa discussão exigem um cigarro antes que tudo comece, depois que tudo termine. Quando se acorda, depois que se come e depois que se é comida. Às vezes, cagando, mas sempre sempre sempre nos momentos de angústia, preocupação e sofrimento. Fumar é dramático.

O que não foi um tesão foi ir ao médico essa semana e descobrir que, depois de fazer um teste de capacidade pulmonar, a capacidade dos meus pulmões já está comprometida e que, para alguém da minha idade, o teste deveria ter um aproveitamento de cem por cento, e o meu não tinha. Também não foi nada excitante ouvir dele, enfaticamente, que pessoas que fumam desenvolverão algum tipo de enfermidade em virtude do vício, mas nem todas elas terão alguma doença relacionada aos pulmões; e ele disse, categoricamente, que se eu continuasse fumando teria bronquite crônica, e mais adiante, enfisema.

Não vou encher o saco de quem fuma ou dar lições de moral pra quem quer que seja, porque todos somos livres pra fazermos o que nos satisfaz, mas a pergunta que fica é: o que me satisfaz é realmente o prazer safado das baforadas que me trarão a ruína em algum momento? Será que de fato preciso me destruir de maneira inconsciente para que esse mesmo inconsciente continue fazendo a festa dentro de mim e me dominando?

Meu inconsciente é tão cheio de artimanhas, que me sugeriu que eu fosse até a lixeira e chafurdasse por ali em busca do maço jogado fora, então me imaginei fazendo isso e, obviamente, mandei meu lado torpe ir dormir. É claro que ele não foi, e fica no meu ouvido dizendo que os cigarros ainda estão lá, e que eu ainda estou com vontade fumá-los. Nessa hora, então, mando-o tomar no cu, e bem que ele gostaria disso, mas também não vai.

Fato é que não fui revirar o lixo, e que a única sujeira que estou tentando limpar é a que existe dentro de mim e que, em parte, também era alimentada pelos cigarros.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como foi pra mim

Isto aconteceu enquanto eu morava naquela cidade, mas já não era mais criança; tinha dezesseis anos e estava no terceiro ano do ensino médio. Lembro que no sábado anterior ao que aconteceu, era dia 23 de junho do ano de 2001, um sábado, e eu tinha ido à festa junina do meu colégio.

Eu fazia o tipo porra-louca-rebelde e fui pra tal festa usando um vestido de cetim bordô estampado com caras de bichinhos fofos que eram cor de creme, estava de meia-arrastão e com meu inseparável All-Star preto; no pescoço, usava uma enforcadeira de metal; eu adorava fazer o tipo que chama a atenção, e chamava, de fato. Minha melhor amiga estava comigo e foi uma noite divertida. Lembro de ter invejado os cabelos escorridos de uma menina que estava lá. Lembro disso até hoje, sabe-se lá por que.

Não me lembro do que houve naquele domingo, dia 24, exatamente um mês antes do meu aniversário, mas lembro perfeitamente do que sonhei naquela noite, que viraria a segunda-feira.

No meu sonho, eu estava em casa, não era a minha casa de verdade, mas era na ocasião. Dois homens entravam lá pra roubá-la e atiravam em mim. Fui baleada duas vezes e um dos tiros me acertou no pescoço. Eu não sentia qualquer dor, e me via caindo no chão em câmera lenta. Já caída, sentia o sangue escorrer formando uma poça espessa; eu sentia um enorme alívio e desfalecia. Parecia uma libertação, como se eu tivesse morrido. Acordei, então, no que era o meu quarto, deitada em uma cama de casal e minha mãe estava sentada ao meu lado, numa cadeira. Em frente à cama havia uma grande penteadeira com um espelho oval; eu me levantei, fui em direção ao espelho e vi os pontos que haviam sido dados no meu pescoço.

Acordei com uma estranha sensação. Era segunda-feira, e na escola ainda comentei com algumas pessoas que tinha a impressão de que algo fora do comum aconteceria, e aconteceu.

Fui pra casa na hora do almoço, como em todos os outros dias. No meio da tarde, minha mãe me liga. Ela disse que estava indo pra casa e que tinha algo muito sério a me dizer. O seu tom me perturbou profundamente. Pensei em milhares de coisas, sendo que todas elas a envolviam. Pensei que ela iria me dizer que tinha aids, que tinha sido demitida, que tinha alguma outra doença gravíssima. Fiquei com o coração pesado de maneira que eu não sabia explicar.

Quando ela chegou, me disse: "Teu pai morreu, ele se matou". Pronto, caí numa outra vida, paralela a tudo. Eu não sabia como reagir, não conseguia chorar, só não acreditava. Uma tia dela, que morava na ilha, tinha ligado pra ela e contado que naquele dia, de manhã, ele havia dado cabo da sua vida. A porra toda era inconcebível pra mim. Como assim meu pai morreu? Pior, como assim ele se matou? Era a notícia mais surreal que eu poderia receber. Pra mim, ele era um homem católico, dedicado ao trabalho e que condenaria qualquer pessoa que tivesse atitude semelhante, mas é claro que eu não fazia ideia de quem era o meu pai de verdade.

Aí, então, liguei pros meus irmãos, cobrando uma satisfação, pois a filha de longe não soube da morte do próprio pai pela família dele, soube por outros. Ouviu deles um telefone desligado na cara e a resposta de que haviam tido uma preocupação muito grande com a caçula. Ah sim, todos ficaram muito mexidos com o fato, mas a família, os tios de estirpe muito distinta, rica, fina e religiosa, tinham que enterrar de uma vez a vergonha que o filho mais novo lhes trouxera. Morreu em torno das sete horas da manhã e às cinco da tarde já estava sendo escondido no jazigo da família, junto com os seus pais e avós.

Que merda, eu não o via já havia seis anos e nunca mais o veria novamente.

Baixaram na nossa casa pessoas da federação espírita, lembro de um cara careca e barbudo, falando sobre a morte, tentando confortar e eu só tinha vontade de mandá-lo tomar no cu. Minha mãe teve os surtos de culpa tardia e se vitimou pela morte do homem que ela tinha passado a vida inteira detonando pra mim. Eu liguei pro carinha de quem eu era a fim na época, e que vivia me maltratando e me dando foras pra contar a novidade, esperando algum tipo de consolo. Ele, obviamente, não sabia o que dizer, mas eu queria ser apaziguada pela perda, procurando ânimo e pena, esperando que assim ele fosse me amar.

Usei a morte do meu pai, desde o primeiro dia pra que sentissem pena de mim, mas isso não deu muito certo.  A noite já tinha aparecido quando eu achava que ia explodir se continuasse dentro de casa com todas aquelas pessoas estranhas dando condolências por um morto que já estava enterrado. Desembestei pela rua, e fui parar no prédio do meu cursinho, achando que conseguiria assistir à aula de física e esperando a piedade de quem estivesse por perto.

Não lembro quando foi que consegui chorar a morte dele, só sei que queria fazer de conta que aquilo não tinha acontecido. Não fazia nem uma semana que ele tinha morrido e eu inventei de ir a uma festa, sob os protestos da minha mãe. Era muita falta de respeito minha sair pra me divertir quando eu deveria estar de luto. A festa era em uma casa grande; lembro da escuridão, da música alta, das muitas pessoas que estavam lá e lembro também que dentro de mim só havia um silêncio gigante. Eu estava lá, mas não estava.

Um mês depois, foi meu aniversário de dezessete anos, em casa, com bolo e salgadinhos pra dois amigos que me suportavam. Era uma vida de bosta. Não sentia nada, a ficha não tinha caído, ainda.

Meu pai foi um estranho pra mim, o tempo todo. As lembranças que eu tinha dele, em sua maior parte, eram ainda do tempo em que eu era uma meninota e ele me chamava de galega. Minhas lembranças eram de tristes conversas pelo telefone, nas quais eu tinha que fazer o que mais odiava em toda a vida, pedir.

Ele nunca disse que me amava, e a coincidência de tudo isso foi o sonho. No dia em que ele morreu, eu sabia que algo estranho aconteceria, eu tinha levado um tiro no pescoço, e foi se enforcando que ele teve paz. Sempre esperei que ele tivesse o mesmo alívio e sensação de libertação que eu tive, quando caí ensanguentada e leve no chão do meu sonho. Nossas vidas se tocaram e eu pude sentir, então, um pouco do que ele buscava.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Atrás da porta

Eu não sei o que ele tinha, mas seja lá o que fosse, tinha nascido com ele, acho que tinha nascido com ele. Um homem que já fora "normal" não aceitaria viver nas condições em que ele vivia. Mas o que eu sei da loucura dos outros? Se é que era loucura... Vou contar como era, mas antes preciso me inserir no meio disso, porque essa história não é minha, mas eu vi algo da história dele.

Minha mãe namorava o irmão desse homem, e tínhamos voltado praquela cidade depois de quase um ano fora. Recém-chegados, ficamos na casa da mãe deles. Lá, moravam muitas pessoas. A matriarca, que cuidava de uma loja de muambas junto com a filha única, que era separada de algum marido mau-caráter e carregava três filhos pequenos nas costas; o patriarca fora de atividades, um senhor acamado há algum tempo e que já vivera a glória que almejava sendo delegado na cidade; um filho mais novo, solteiro e também policial, mas com uma índole duvidosa; o outro irmão, namorado da minha mãe, desparafusado e professor de História, como ela, e ser essas duas coisas é quase um sinônimo; a empregada espevitada e o homem que mencionei no início.

A família inteira tinha algo fora do comum, não no bom sentido, mas no sentido de perturbações emocionais; tantas que formavam uma nuvem pesada no ambiente meio decrépito do lugar em que viviam. Estavam todos juntos, protegiam-se uns aos outros, mas sequer sabiam do que faziam parte.

Não sei ao certo se ele era o primogênito ou o caçula, sei que tinha o nome do pai, e que por sua cara, passaria tranquilamente pelo filho mais moço. Ele vivia quase que numa masmorra. Na cozinha, bem em frente à mesa de refeições, havia uma porta de ferro, com uma pequena janela de vidro vedada. Era como a porta de uma solitária em um hospício, mas lá dentro as paredes não eram acolchoadas e nem ele vivia com uma camisa-de-força branca. Ele morava lá, nu, num ambiente sem janelas, sem luz, sem móveis; havia apenas uma rede. A única claridade que entrava lá, era através do vidro.

Às vezes, quando a empregada abria a porta para lhe dar de comer, ele fugia. Corria pelado pela casa, indomável. Quando isso acontecia, chamavam sua mãe, que era a única capaz de apaziguá-lo. Deixava o filho manso, quase em transe. Quando ele ficava nervoso, gritava, e os seus gritos abafados pelas paredes, pareciam uivos desesperados. Ela lhe fazia a barba, quando já estava muito grande. E frequentemente o quarto era lavado, pois fedia à merda e comida estragada.

Ele não falava. Não sei se porque não sabia, ou se porque desaprendera, já que naquela casa ninguém estava disposto a ouvi-lo. Quando ficava manso, soltavam-no e até lhe vestiam uma cueca ou algo como uma fralda, não lembro ao certo, e ele dava um passeio pela casa. Tinha o olhar débil e lascivo, e constantemente tocava sua genitália. Babava, ria, comia com as mãos. As pessoas da casa faziam gracejos, aos quais ele respondia com um riso de deboche. Ele era franzino, mas tinha força física, e acredito que ele usava isso a seu favor. Se ele ficasse fora de controle, o que poderia acontecer? Ele não era tratado como um retardado, era tratado como um bicho, e eu tinha medo dele.

Não sei se ele é vivo ainda hoje, porque faz quinze anos que presenciei o que contei aqui, mas mesmo na loucura e na debilidade em que ele vivia, imagino que ainda tinha algum desejo de ser visto como gente, e não como o monstro escondido no quartinho da cozinha. Eu não o conheci de verdade, talvez a mãe dele o tenha conhecido ou talvez, ainda, ela apenas soubesse como amansá-lo para parecer que não havia nada de errado ou de diferente dentro daquela casa. Desprezo no cuidado, aquele homem simplesmente não existia.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Limpar ou não limpar?

Nunca gostei dos serviços domésticos, apesar de saber fazer tudo dentro de casa. Aliás, qualquer macaco sabe fazer o serviço da casa. Cresci com a minha mãe me botando pra trabalhar. Ela sempre disse que só podia mandar quem sabia fazer; e isso é certo. Se você gosta que a sua casa pareça um brinco, tem que saber como deixá-la assim.

(Aliás, mesmo não gostando do trabalho sem fim que demanda uma casa, é importante saber fazê-lo. Acho um absurdo gente que não sabe lavar um talher sem deixá-lo ensebado ou que não sabe fazer um feijão com arroz sem fazer drama de que não tem talento pra cozinhar. A gente aprende fazendo e isso serve pra mulheres e homens. "É de menino que se torce o pepino" já diria o ditado. Se você não aprende essas coisas quando pequeno, aos poucos, e a necessidade de fazê-las, é provável que você cresça sendo uma bela bosta. Não adianta ser bom na escola e não saber onde fica a vassoura; não adianta viajar pelo mundo e não saber lavar a porra da sua calcinha; não adianta ser lindo e sarado se você não sabe passar as suas roupas, mas enfim...)

Desse jeito eu aprendi, mas a minha mãe era bem esperta porque enquanto ela fazia coisas mais leves como estender a roupa, meu irmão e eu limpávamos a casa. Ela sempre foi boa em mandar, principalmente em mandar que os outros fizessem coisas que ela era perfeitamente capaz de fazer sozinha; isso me dava nos nervos.

Mas com ela também aprendi a cozinhar, depois de muito feijão e arroz queimados por esquecimento. Ela ia trabalhar, me deixava cuidando da comida que ficava no fogo, eu ia assistir a Xuxa e fodia tudo. Comida torrada, cheiro de comida torrada pela casa e me batia o desespero! A esculhambação ia me tomar inteira ao meio-dia; mas porra, eu tinha uns oito, nove anos... É muita responsabilidade pra uma fedelha uma panela de pressão! Enfim, hoje eu cozinho decentemente e quem já provou minha comida, sabe que ela é boa.

Mas voltando à arrumação... Eu achava que ela era neurótica porque podia estar tudo arrumado, mas se tivesse um copo na pia a tempestade estava feita: "Ninguém me ajuda, essa casa tá sempre uma zona!", e pensava eu que quando eu tivesse a minha casa as coisas seriam diferentes.

Pois então, hoje tenho a minha casa e também sou neurótica; as coisas são iguais. Mas é que, puta que pariu, essa porra de serviço não acaba nunca! Casas deveriam ser limpas e lacradas e deveríamos viver num quarto anexo que seria um chiqueiro.

Eu arrumo tudo, limpo tudo, tiro o pó, aspiro, passo o pano, lavo a louça, guardo a louça, levo o lixo pra fora, coloco a roupa pra lavar, estendo a roupa, recolho a roupa, dobro a roupa e a coloco no cesto pra passar, limpo a caixa de areia dos gatos, limpo privadas, pias, espelhos... Acontece que eu moro na minha casa e é isso que estraga tudo.

No mesmo dia aparece mais louça pra lavar e o chão já começa a ficar sujo de novo. É pelo de gato, meu cabelo que cai sem medida, os gatos que derrubam a tigela de água deles e fazem uma lambança diária na cozinha... É uma merda de trabalho ingrato... E tudo pra quê?

Se arrumo, tudo aparece de novo de qualquer jeito; se não arrumo, a cagada toda vai se acumulando de uma maneira que me deixa doida! Odeio arrumar a casa, mas adoro ter a casa arrumada. Às vezes baixa em mim o espírito da dona de casa perfeita e eu arrumo até as gavetas, jogo quilos de lixo fora, papelada de anos, arrumo o guarda-roupas; mas na maior parte do tempo, queria tacar fogo em tudo e sair correndo.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Das surras que levei

Quando era pequena e ainda na adolescência, eu apanhei. E não estou aqui pra me queixar disso. Acredito na conversa entre pais e filhos, mas também acredito na palmada corretiva. Isso não quer dizer que eu seja a favor de crianças espancadas e traumatizadas. Lembro de várias ocasiões em que apanhei ou que levei um corretivo.

Meu pai me chamava de manteiga derretida porque eu chorava por tudo. Ele foi bem filho da puta comigo quando, uma vez, eu não tinha mais do que três anos e, porque estava chorando, ele me jogou um balde de água fria, literalmente. O que uma criança faz numa hora dessas? Chora mais, é claro.

Traumatizada, acho que não fiquei, mas que durante muito tempo da infância eu chorava sempre que brigavam comigo ou que eu ficava nervosa ou brava, eu chorava. Mas não tenho raiva dele por isso, até porque essa é a única lembrança que tenho de algo que ele tenha feito comigo, e ele era um espírito de porco inegável, então...

Da minha mãe, apanhei umas tantas vezes. A primeira vez que me lembro foi quando eu, meu irmão e minhas duas primas, saímos de casa à noite, escondidos, de pijamas e fomos a um parquinho que estava instalado perto do prédio em que morávamos. Eu devia ter uns cinco anos. Quando voltamos pra casa, minha mãe bateu na gente com um cabide. Trauma? Nenhum. Lembro disso achando graça. Tínhamos aprontado e de resposta, ganhamos umas cabidadas na bunda.

Um pouco mais velhos, meu irmão e eu apanhávamos quando demorávamos muito no banho. Lá vinha minha mãe com o chinelo pra nos bater. Com o corpo molhado, não havia como não arder. A gente tentava escapar e levava chineladas nas mãos; a gente ria, ela ria também e ficava ainda mais irritada, perdia a moral.

Várias vezes elas nos xingou de filhos da puta, e eu adorava! Retrucava, porque a puta era ela. Ria e saía correndo pela casa, e ela atrás de mim e do meu irmão.

Lembro que uma vez eu estava discutindo com ela, e ela irritada comigo, jogou em mim uma bolsa que tinha, com um zíper enorme e grosso. O zíper bateu no meu rosto e fiquei com o vergão daquela merda na cara.

Meu irmão e eu também tínhamos brigas homéricas e eu, obviamente, mais apanhava do que batia, mas nunca deixei barato. Tinha as unhas compridas basicamente pra me defender dele. Ele me batia, e eu cravava as unhas nos braços dele. Ele vivia arranhado. Nessas brigas de irmão, eu já bati nele com uma barra de ferro e ele já me deu um chute na boca do estômago, que achei que iria morrer.

Coisa de "criança". Éramos violentos um com o outro e em várias épocas da minha vida, eu o odiei, queria mesmo que ele morresse, mas ele não morreu, ainda bem, porque hoje temos uma relação muito afetuosa, apesar dos nomes chulos pelos quais nos chamamos.

Eu apanhei, bati, levei algumas boas surras e carrego isso com tranquilidade, mas duas coisas me machucaram de verdade. Uma foi a surra sem motivo que levei quando estava na sétima série.

Foi em uma tarde em que eu tinha algo pra fazer na escola e havia combinado com a minha mãe que se não chovesse - porque o dia estava meio num chove-não-chove -, eu iria pra casa de ônibus, mas se chovesse, ela viria me buscar. Beleza, eu fiz o que tinha de fazer, não estava chovendo, e saí da escola com um colega de sala, que morava ali perto. Ele foi pra casa dele e eu peguei o meu ônibus.

Quando desci, na esquina da minha casa, já vi o meu irmão vindo na minha direção, avisando que eu "estava fodida", e eu não entendi nada. Entrei em casa e começou a merda toda. Tudo aconteceu porque quando saí da escola, não estava chovendo, mas onde eu morava estava, e minha mãe saiu pra me buscar. Chegou na escola, eu não estava lá; ela perguntou por mim para o porteiro e ele disse a ela que eu tinha saído de lá com um menino. Pronto. Nisso, ela me tirou pra putinha e achou que eu tinha ido dar pro guri.

Levei uma baita surra, totalmente injustificada. O que mais me magoou nisso tudo foi o fato de eu sequer poder falar, de não poder explicar que nada tinha havido. A ideia de que eu era uma vagabunda já estava formada na cabeça dela, e eu não pude fazer nada. Chorei, morri de raiva e guardei isso comigo.

A segunda surra que eu levei foi uma em que nem um tapa houve, quatro anos atrás, já depois de adulta. Nessa surra, ouvi coisas da minha mãe que nem o Diabo em pessoa falaria pra Hitler, seu filho. Nessa surra, eu vi os seus olhos faíscarem de um ódio tão imenso e débil contra mim, que achei que ela era o próprio mal. Ela proferia palavras e rogava pragas como se estivesse possuída, e eu só conseguia tremer, chorar e me encolher dentro de mim mesma, achando que não merecia ouvir o que ouvi dela. Nesse dia, em que ela não encostou um dedo em mim, foi o dia em que me senti mais espancada, ensanguentada, incapaz de mover os olhos de tanta dor. Foi um dos piores dias da minha vida.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu, escritora

Não sei quando foi que comecei a escrever, não me dei conta do que fazia. Já tive diários quando era menina, mas não era muito assídua na tarefa de falar sobre o meu cotidiano. Depois que cresci, a verdade é que nunca me imaginei em nenhuma profissão muito significativa. A primeira coisa que quis ser foi arqueóloga, não sei por que cargas d’água. Fui crescendo e passei por várias delas... Professora, médica, veterinária, vendedora, atriz, diplomata... Acabei me formando em Letras, e essa formação não me dá ao menos um nome; “No que você se formou mesmo?” – Me formei em Letras, sou letrada? Acho que não. Das aspirações profissionais da infância passei a algumas outras que me traziam frustração: ser dona de casa, desempregada, sem perspectivas porque puta que pariu (!) não sei o que me deleita! Não sei do que gosto!


Escrever, então, pensei, poderia ser uma boa... Mas sobre o que eu escreveria? Não sou imaginativa como os grandes escritores que criam personagens densos com histórias conflituosas e desfechos bem pensados. Achei que seria uma ideia escrever sobre mim, sobre as minhas vivências, sobre as minhas parcas impressões acerca do mundo, mas vendo agora que não sei sequer o que me excita na vida, descubro que sou uma farsa. Mas isso também é mentira porque já sei disso há tempos, e escrever realmente me faz feliz.

O problema é que nunca acreditei em mim, porque sempre tive os outros como referência, os outros que são melhores do que eu. Sempre que acreditei um pouco mais no meu potencial, bastava que olhasse pro lado pra ver que havia alguém acima, e isso me fazia cair. Caio todos os dias por não conseguir ver em mim mesma tudo o que tenho de único.

A autoajuda vem agora: ninguém é melhor do que eu posso ser; somos únicos em tudo. Eu busco referências ao lado que me desestabilizam, como se elas só servissem pra provar que não sou capaz de fazer o que quero. Esqueço, com isso, que eu também sou referência pra alguém. Alguém me lê, me acha boa e me visita todos os dias esperando que eu tenha escrito algo novo.

Alguém espera ouvir de mim algo que faça uma mínima diferença em sua vida. Eu posso tocar as pessoas; posso ser uma distração em meio ao trabalho, posso ser ridicularizada, posso me tornar uma lembrança agradável ou desconcertante, posso xingar e lavar a alma de alguém e posso também fazer alguém chorar, porque eu sou depravada, mas também sei ser dramática, melancólica, doce e adulta. Eu posso fazer com que você se veja através de mim.

A gente consegue fazer a diferença na vida de várias pessoas, todos os dias e, talvez, a graça de tudo esteja nisso. Estamos sempre marcando as pessoas que cruzam os nossos caminhos. Elas nos deixam marcas e deixamos impressões nelas também. É tudo muito óbvio, mas eu gosto de pensar nisso, e decidi que, mesmo que o meu alcance seja limitado, deixarei a minha marca escrevendo.

sábado, 6 de agosto de 2011

Infância IV

Naquela cidade, a menina conheceu sabores diferentes. Nunca simpatizou com o açaí, apesar de todos em sua casa terem gostado do fruto. As batedeiras ficavam espalhadas por todos os cantos, e na hora do almoço, havia filas para comprar aquele sumo, que era a base alimentar de grande parte da população. Do fino ou do grosso, colocado em sacos plásticos e comprado aos litros, tomavam acompanhado de charque, camarão, farinha demandioca, que lá era amarela e grossa - deliciosa-, com farinha de tapioca, tamuatá ou puro, aquele era o fruto que dava a leseira depois de comê-lo, melhor dizendo, depois de tomá-lo.

Os camarões do rio também eram gostosos, e vendidos pelas ruas em carrocinhas, a preços módicos. A menina não gostava muito do cheiro, mas o sabor... Ela aprendeu a gostar de peixe frito, de palmito de jussara, de macaxeira e de mingau de tapioca. Mas nunca conseguiu sentir nem o cheiro da maniçoba, tão apreciada por aquela gente; tacacá, também, não engolia.

Os sabores das comilanças eram geralmente realçados por uma pimentinha que a menina conhecia bem, mas não era porque gostava; conhecia o ardor da pimenta-de-cheiro desde os oito anos, quando uma vez, numa briga com o irmão, ele por vingança cruel de criança, esfregou-lhe uma dessas na boca da pequena. Naquele dia, de boca inchada e sem jeito de parar de arder, viu que nunca provaria seu molho amarelo.

Naquela cidade, a menina aprendeu a dançar carimbó, ouvindo Pinduca. Lá também aprendeu o que é brega, o ritmo musical, que tocava nos bares, nas rádios, nas casas dos vizinhos, a qualquer hora do dia ou da noite. Com esse som, os casais dançavam colados, rodopiavam e suavam de um jeito safado e, irremediavelmente, contagiante. Ela não gostava da música, mas não havia como não aprender ao menos as suas letras, visto que estavam por toda a parte.

Mas lá, naquele lugar, ela descobriu músicos talentosíssimos, que cantavam a região com todas as belezas que ela tinha, e ainda tem. Com nostalgia, a menina se despede do relato de hoje, com Osmar Júnior cantando o Norte.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sobre as pessoas que caem

Você anda distraído pela rua, não vê um pequeno buraco, pisa em falso, torce o pé e empacota no chão. Se ninguém o vê, dá graças; se há muitas pessoas por perto, é quase certo que não nenhuma delas vai ajudá-lo a se levantar, mas que elas rirão, apontarão para você e o acharão um idiota por ter caído, pode ter certeza.

Nunca achei engraçado ver alguém caindo, nem quando criança, e crianças podem ser bem escrotas ao verem alguém no chão, mas isso nada mais é do que o reflexo da educação que receberam de seus pais. A falta de educação e de solidariedade ficam claras quando o assunto é uma queda.

Fato é que todo mundo cai. Se você tem pernas, anda por aí, descalço ou de salto alto, pode cair. Você pode escorregar e cair de bunda; pode tropeçar nos seus próprios calcanhares e cair de joelhos. O cóccix sente o impacto e seu traseiro pode doer por semanas. Seus joelhos podem ficar ralados e com hematomas, e o mesmo acontece com as suas mãos, que o amparam. Suas mãos impedem que você caia de cara no chão e que quebre os dentes ou o nariz; suas mãos também impedem que se faça um corte no seu queixo.

São as suas mãos que o impulsionam para que você se levante do chão e para que, mais à frente, possa cair de novo. Pode ser que haja alguém do seu lado, em quem você possa se apoiar para não cair, mas também pode ser que você caia e leve essa pessoa para o chão consigo. Pode ser ainda que só você caia, e que ela o ajude a se levantar e a passar logo pela multidão, de cabeça erguida.

Você, em algum momento da sua vida, vai cair; é questão de tempo. As pessoas caem por diversas razões. Elas caem porque andam distraídas e a queda vem para despertá-las; elas caem por medo de cair e também por excesso de autoconfiança. Você pode cair andando em um terreno plano; subindo ou descendo um lance de escadas; pode cair do alto de você mesmo.

Caímos sempre, todos os dias, e cair no meio de uma rua movimentada nos remete a uma vergonha tão intensa, que só gostaríamos de ter caído em um buraco negro, que nos tragasse e nos levasse para longe do riso alheio, porque cair é mais do que apenas perder o equilíbrio; cair é ficar exposto, vulnerável. Cair é ficar pronto para ser chutado, pisado, levado por quem passa.

Melhor é quando caímos sozinhos e podemos rir de nós mesmos; podemos praguejar o chão, nossos sapatos, os degraus, os buracos, as poças que nos fazem escorregar ou mesmo os nossos pés, por não terem visto que o tombo era iminente.

Hoje choveu o dia todo. Ainda chove, na verdade. Saí de casa de botas com solado de borracha, mas eles não puderam me conter. No piso molhado, em algum milésimo de segundo aconteceu: senti meu pé torcer e quando vi, já estava no chão. O joelho direito ardia pelo atrito com o jeans. Xinguei tudo ao mesmo tempo e levantei. Fui andando, mas pelo rabo dos meus olhos, vi as caras maledicentes de quem tinha presenciado o meu tombo. Eu não olhei para trás.

Depois, analisei os estragos. Palmas das mãos doloridas e  pretas do chão sujo; joelhos ralados e instantaneamente roxos. Acontece. Amanhã caio de novo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Infância III

Naquela cidade, a menina aprendeu sobre o amor e sobre as perdas. Lá, ela enterrou um irmão que esperou por nove meses pra nascer; que nasceu num dia e morreu no outro. Ela nunca viu seu rostinho pequeno, apesar dele ter tido um nome. Ela nunca o conheceu, mas sentiu todo o pesar de sua mãe por tê-lo perdido.

Por vários dias, depois de ter voltado do hospital, a menina viu sua mãe no choro sofrido de quem perdeu uma cria; com os seios empedrados e com febre por não poder alimentar seu bebê. Ela via aquilo e não entendia a dimensão da dor, da separação depois da longa espera por ficar juntos, por conhecer de fato quem se carregou no ventre, pela convivência e aprendizado que nunca viriam.

Naquela cidade, a menina acompanhou o sofrimento dela tantas outras vezes, como quando ela perdeu o amigo tão querido. Ele era bonito, tinha os olhos claros, e ela guardava uma foto 3x4 em que ele parecia um jesus borrado. Ele era tão novo pra morrer, mas se foi em um acidente brutal de motocicleta. Nas estradas do interior, cheias de cascalho, ele derrapou. Chegou a ser levado pro hospital com vida, mas tinha perdido um braço, e dizem, que pela enorme ferida do braço amputado, podiam ver seu coração.

Não é assim que se esperava ver o coração de um rapaz tão bom e católico. Ele não acreditava no além, e várias vezes depois de sua morte, a mãe da menina sonhou com ele; remoía-se de culpa por ele ter partido brigado com ela, mas essa foi só uma das muitas culpas que ela carregou pelo tempo em que viveu naquele lugar.

A menina também sentia culpa. A primeira grande culpa que sentiu foi pela morte do pequeno cachorro de pelo encardido que tinham. Ele era adorado pelas pessoas da casa, mas um dia, a menina esqueceu o portão aberto, até que um homem gordo bateu à sua porta perguntando-lhe se o cachorrinho de pelos encaracolados não era dela, ao que ela respondeu "sim", e foi quando o homem disse que ele estava na esquina, morto. Havia sido atropelado. Ela correu, chorando. Viu-o mole, o sangue tingiu seu pelo de tapete, seu pequeno focinho preto, molhado e sujo de areia, não fungaria mais nada.

Foi a primeira vez que perdeu alguém e sentiu enorme culpa por isso. Fora a responsável pela morte de um ser e isso era terrível. A menina não tinha nem dez anos ainda, e já era responsável por tirar do convívio dos seus um dos seus.

Naquela cidade, a menina tivera incontáveis gatos e cachorros, que tiveram incontáveis ninhadas de animaizinhos que foram amados e queridos por todos os cantos das muitas casas em que ela morou. Depois de um tempo, um de seus quintais tornou-se um verdadeiro cemitério de animais. Os bichinhos morriam, atropelados ou por doenças que os faziam cagar sangue. O cheiro daquela merda, era o cheiro da morte, da doença que não tem volta, que aniquila. E ela chorava sobre eles, e depois seu irmão mais velho os enterrava no fundo do quintal, em meio às árvores e folhas caídas.

Logo a menina percebeu que quando a morte aparecia, seres humanos e animais eram iguais. O cachorro do vizinho, atropelado por um caminhão caçamba, e deixado no asfalto com seu crânio esmagado e seus lindos olhos azuis saltados das órbitas, era igual à criança atropelada pelo ônibus na frente da escola; igual à mulher que andava de bicicleta e que também fora atropelada por um ônibus.

As doenças matavam os bichos, assim como matavam as pessoas, os amigos de sua mãe, com caras assustadoramente cadavéricas, dentro de caixões baratos. Amigos morriam afogados, com seus buchos inchados e línguas pra fora, olhos saltados como os de sapos-boi que quacham sob as casas de palafita daquela cidade.

domingo, 17 de julho de 2011

Infância II

Naquela cidade, a menina cresceu ouvindo histórias de rasgas mortalhas que eram prenúncio da morte de pessoas próximas. Ouvia isso da avó de um vizinho. A velha negra era muito boa com as lendas que envolviam a floresta, o rio e os seres bizarros. Ela falava sobre visagens e sobre a cobra Sofia, uma cobra gigante que engoliria uma ilha que ficava ali por perto, caso a estátua de São José fosse arrancada de onde estava. E a estátua estava fincada no chão do rio, sobre uma pilastra, ao lado do trapiche que ficava na beira do rio.

Maré alta, maré baixa, todo mundo conseguia ver São José. E quando a maré estava baixa, tão baixa que se podia andar naquele chão, garotos se juntavam para jogar o que eles chamavam de futelama. Havia pedaços de madeira cravados no solo que faziam as vezes de traves, e todo mundo que jogava, saía de lá coberto da lama meio marrom, meio cinza.

Naquela cidade, a menina morou duas vezes no mesmo cortiço, e o cortiço ficava perto da catedral, e atrás dessa catedral, havia um prédio enorme que fora muito anos atrás um hospital psiquiátrico, e depois uma escola. Ele estava fechado e era administrado pela Igreja. Seu irmão, arteiro que era, uma vez entrou lá pra explorar o que meninos de doze anos exploram. Entrou não sabia como, junto com um vizinho, e fazendo barulhos lá dentro entre carteiras velhas, acabou chamando a atenção do padre. "Quem está aí? Não gosto de assombrações!". Ele saíra de lá depois de assustar o pobre pároco.

Juntavam-se em bando, sob a luz do poste que ficava no meio-fio daquela travessa, para conversar e brincar com toda a molecada que circundava o lugar. "Ô, Giiiilson!!!", chamava a mãe de um deles, e logo todas as mães berravam em coro, porque já estava na hora ir pra casa.

Ali também, havia uma casa de dois pisos, que estava em construção eterna, com uma montanha de areia na sua frente. Durante a semana, a menina e seus vizinhos pulavam e rolavam sobre aquela areia como cachorros que gostam de deixar seu cheiro nos lugares por onde passam. Nos fins de semana, com a construção fechada, pegavam enormes caixas de papelão e levavam para dentro da casa. Instalavam-se nelas e faziam de conta que estavam em uma nave espacial ou em um avião. As conversas eram de "gente grande", porque pilotar uma nave não era coisa pra crianças.

Ali, naquele monte de areia, não havia só areia, e também não havia só cocô de cachorro. Havia tábuas, com pregos virados para cima, e num deles, no meio da brincadeira, a menina fincou-lhe o pé. Aiii, o prego entrou inteiro, bem ao lado do dedão! Atravessou o chinelo de borracha, e daí só se via dor, sangue e areia; aquela sujeira típica de machucados infantis. Naquela ocasião não precisou de pontos, mas a anti-tetânica foi indispensável; o prego estava enferrujado, claro.

Naquela cidade estupidamente quente, em épocas de chuva, apareciam baratas cascudas, mas não eram simples baratas. Eram baratas do tamanho de mãos adultas, com cascos que pisados, não eram destroçados como os das baratinhas domésticas que se vêem por aí. Pior de tudo é que elas voavam... Pior ainda é que elas surgiam aos montes. Quando a menina acordava de manhã para ir para a escola, no caminho via duas grandes variedades de coisas pelo chão. Mangas e caroços de mangas, porque lá havia inúmeras mangueiras, e as baratas. Podiam ser varridas, pisadas. Tinha-se que escolher onde pisar, porque elas estavam por toda a parte; e mortas. A menina nunca soube porque elas amanheciam mortas, mas era assim que amanheciam. À noite voavam, picavam, aterrorizavam-na e, de manhã, estavam mortas. Eram como um pesadelo de verdade, que durante o dia podia ser visto, mas não fazia mal a ninguém.

E não é porque só fazia parte da imaginação dela, que não poderia lhe fazer mal, ou bem.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cheiro feliz de meninice

Hoje, quando fui buscar a Ana na escola, senti o cheiro mais doce de todos; o cheiro do qual já falei antes, o da minha infância pretensamente feliz. Ele apareceu do nada, entranhou-se no meu nariz e eu comecei a ver na calçada por onde eu andava, as boas lembranças do que já foi.

Fiquei tão distraída pensando que esse cheiro tinha aparecido para mim como o prenúncio de coisas boas, que quase fui atropelada por um carro vermelho. Eu não olhei para atravessar a rua, como não olhava quando era criança.

Quando o carro me tomou de sobressalto, dancei no ar, de susto. Mesmo assim, o cheiro permaneceu. Fui e voltei com ele, e amanhã é o último dia de aula dela. Teremos férias, como quando eu era pequena.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Infância I

Naquela cidade, havia muitas coisas diferentes pra uma menininha que morava antes em um ilha bonita.
Das praias de água azul, foi conhecer o rio, enorme, tão largo que quase não se via a outra margem. Aquele rio de águas escuras e ao mesmo tempo doces escondia toda a história daquele povo, daquele lugar onde ela foi morar.

Lá, as meninas andavam só de calcinhas pelas ruas sem asfalto. As casas eram de madeira e na cidade não havia prédios. A escola em que estudava também era de madeira, e ela não tinha muitos amigos, nenhum, na verdade, porque era vista como diferente da maioria. As pessoas de lá tinham traços caboclos, indígenas e a menina branca, de nariz fino, dentes separados e comportamento introvertido não era das mais agradáveis.

Naquela cidade, que era banhada pelo maior rio que existe, havia um lugar que chamavam de Beira-Rio, e ela era acostumada com a Beira-Mar. De salgada pra doce, de mar azul pra rio marrom. Lá na frente da cidade havia inúmeras carrocinhas com enorme panelas de óleo fumegante, onde os donos desses carrinhos fritavam batatas, e as batatas eram colocadas em copinhos descartáveis e vendidas com um pouco de queijo ralado e um palito. Ela as espetava e via o rio. Era a programação de todos da cidade nos fins de semana. Na época em que só os refrigerantes em garrafinhas de vidro eram populares, esses mesmos vendedores de batatas-fritas, viravam a garrafa de Coca-Cola em um pequeno saco plástico transparente, davam um nó e colocavam nele um canudinho. Era estranho. Bebidas em sacos, comidas em copos, mas era divertido.

Naquela cidade as pessoas também gostavam muito de redes, redes eram mais comuns do que camas e a menina gostava de se embalar nelas. Eram grandes e divertidos balanços quando ela estava acordada, e quando queria dormir, eram como o aconchego confortável de um colo de mãe.

Mas aquela cidade, tão no meio da floresta, também tinha muitos animais rastejantes, e qual foi a surpresa, então, quando um dia, enquanto a menina dormia na rede, uma cobra restejou em direção a ela, colocando-se bem embaixo de onde a pequena estava. Mal pior não aconteceu, porque um vizinho destemido e já acostumado com tais visitas, veio com um terçado dar fim ao animal.

Viveu ela em inúmeras casas com quintal e esgoto a céu aberto. Quando chegava da escola, gostava de parar em frente a sua casa para ver, por debaixo da camada verde de limo sujo, pequenos vermes e girinos que ali se criavam. Eram pequenas vidas asquerosas que se moviam aleatoriamente, como se se debatessem querendo sair dali.

Em um terreno baldio do lado de sua casa, havia também um enorme formigueiro marrom, onde moravam centenas de milhares de formigas de fogo. A menina gostava de perturbá-las. Pegava um pequeno graveto e desmoronava toda a cidade das pequenas raivosas. Várias vezes saíra de lá correndo, por ter sido mordida por várias delas nos pés, mas ela sempre voltava pra desarmonizar o micromundo.

Crescia assim, mudando de casa, de escola. E já não podia mais andar só de calcinhas pela rua, apesar do calor desumano daquela terra.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ático

Subi lá em cima - pleonástico eu sei, mas é que não subi um ou dois andares, subi até láááá em cima, no topo.

Eu subi, e não tinha qualquer intenção de fazer besteira. Trabalhava naquele prédio, já havia cinco anos. Cinco anos indo quase todos os dias até o sétimo andar. Pegando o elevador com aquelas pessoas. Nunca simpatizei com nenhuma delas, mas dividíamos quase todos os dias a caixa claustrofóbica. Eu não ligo pra elevadores, já fiquei preso em alguns. Não dá tempo nem de peidar e o peido feder, porque o socorro sempre vem rápido.

Eu cheguei lá em cima depois de achar por alguns segundos que isso não aconteceria nunca. Quando você está acostumado a descer sempre no mesmo andar, e entra no elevador pra descer em um andar mais alto, parece que você não chega nunca.

Mas eu cheguei. Subi mais um lance de escadas até o ático. O vento batia forte, muito forte. O vento seco gelava meu rosto e me fazia sentir vontade de sair voando. Fui em direção ao parapeito, encostei nele e olhei pra baixo. Vinte e um andares de empresas, de pessoas, de insatisfação e de gente que se faz de louca. O ambiente de trabalho é sempre uma merda.

Olhei pra baixo e vi umas "formigas". Quis dar uma puta escarrada pra ver onde ia parar. Ninguém iria descobrir, mesmo assim confesso que esse clima de empresa, firma, serviço sempre me passou a impressão de que ainda estamos na escola, e que sempre vai haver dois tipos de filhos da puta querendo te foder: um superior pra te chamar a atenção e um "colega" pra te dedurar por qualquer coisa ou fazer fofoquinha.

Não sou sádico nem nada, mas só quem trabalha nesses lugares sabe o que é pensar em ir armado para a "companhia".

Que merda, acho que pior do que ter alguém mala é ter alguém que tem o desplante de se levantar da sua cadeira, ir até o banheiro e voltar de lá fedendo a desodorante barato. Fora o cheiro de macumba que emana do banheiro feminino.

Mas lá no ático, eu não era obrigado a passar por essas provações diárias. Eu, homem equilibrado, benquisto por todos, com o salário razoável e concernente com a função, olhei lá pra baixo de novo, repousei os braços no parapeito e a cabeça nos braços. Depois de mais um dia em que quase não tive tempo pra nada, depois de mais um dia repleto de atribuições, encheções e complicações, eu vi que mesmo tão cheio, meu dia era apenas vazio, vazio em toda a sua porra de rotina.

Eu chorei então. Chorei, solucei, limpei a salmoura das lágrimas na minha gravata. Chorei mais um pouco. Mentira, chorei tanto que nem o vento seco conseguia dar conta. Chorei compulsivamente.

Fiquei com a cara inchada, o nariz trancado. Então aproveitei e dei a escarrada que queria. Ela subiu quente e salgada pela minha goela. Me recompus e voltei ao sétimo andar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

sonhos da semana

Sonhei que não ia ao trabalho duas vezes no mesmo dia, pois eu dormia, e quando o despertador tocava meu expediente já estava pela metade, então não podia chegar tão atrasada. Por isso, precisava de um atestado médico pra apresentar na agência, e pensei em dizer que estava com diarreia. Até me via mentindo para o médico em seu consultório.
Em algum momento do sonho, eu morava em uma casa com um chão de madeira apodrecida, no qual eu pisava e ele ia afundando.
Em outro momento, havia um homem, com uma cara de estivador pesada! Ele tinha barba e parecia mal encarado. Ficava atrás de um balcão pra atender alguém, não sei no quê. Mas atrás desse homem e desse balcão havia o mar, e o mar batia nele, de uma maneira calma, com uma água verde e corrente. De repente a água parava, e havia peixes mortos de vários tamanhos, e agora a água parecia suja e fétida. No meio dos peixes que boiavam, havia um enorme e feio, e depois eu via uma mulher morta, tinha umas feições meio indígenas. Me assustava e saia correndo e gritando.
Hoje, novamente sonhei com o chão de madeira podre. Eu morava em uma casa toda de madeira, e o assoalho parecia firme, mas andando pra lá e pra cá, eu percebia que uma parte dele estava mole. Uma mulher gorda e simpática, com cabelos encaracolados e mãe de meninas gêmeas que estava por lá, vinha em minha direção com um um toco, para cutucar o chão. Mexendo nele, ela conseguiu puxar a madeira velha. Era um pedaço grosso, com o seu meio amarelado, e eu olhava pr'aquilo com certo nojo.
Esses sonhos recorrentes com água e madeira... Fico pensando o que querem me dizer...
Em outro pedaço do sonho, eu estava sentada no chão, encostada na parede de algum lugar, com um grupo de amigos que de fato conheço. Ao meu lado, estava sentado um colega, o qual eu carinhosamente afagava  sua cabeça, e sentia seus cabelos finos em minhas mãos. Recostado em mim, eu sentia um calor aconchegante, era quase um flerte.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Conversa de namorados

- Tudo pronto?
- Tudo.
- Eu pego você aí?
- Tanto faz. Se você quiser, eu posso te pegar.
- Não sei se fica bem... Apesar de que mais tarde nos pegaremos de todos os jeitos possíveis...
- Você não presta, né? E por que não fica bem? Por acaso tem algo de errado nisso, em você me pegar?
- Não, nada de errado, mas é que da última vez, você sabe... Fiquei um pouco constrangido com o que aconteceu...
- Bobagem! Isso acontece nas melhores famílias...
- Na minha nunca tinha acontecido. Será um sinal?
- Sinal de quê? De chuva? Tá frio, mas acho que não chove mais hoje.
- Sei lá... Você entendeu... Pode ser um sinal de que as coisas estão indo rápido demais...
- Rápido demais? Ainda acho que isso não é um sinal de chuva...
- Não falo da chuva. Falo da gente.
- Ah, a gente... Não tinha pensado nisso... Sabe no que eu pensei hoje?
- Em quê?
- Pensei em matar.
- Em se matar??? Oh, meu Deus, não diga isso nem de brincadeira!
- Mas eu não disse me matar, eu disse que pensei EM matar. Você não acha que algumas pessoas deveriam morrer?
- Ah tá... Sim, acho que algumas delas... Mas por que isso agora?
- Sei lá, me ocorreu... Uma coisa meio lei da selva, sabe?
- Sei... Mas acho que estávamos falando sobre nós...
- Ah, claro! Desculpa.
- Tudo bem. Você acha que eu deveria levar meu casaco marrom?
- Aquele bem grosso? Sim, acho. O frio está mesmo implacável, não?
- Até que agora à noite, sinto que está mais quente do que estava mais cedo.
- Não sei. Não saí à rua hoje, mas como aqui dentro é sempre gelado...
- Você está distante...
- Sim, estou distante de você, meu amor. Mas nada que dez minutos de carro não resolvam.
- Eu moro há mais de dez minutos de carro da sua casa.
- Eu sei. Mas em dez minutos dentro do carro podemos ficar tão "unidos"...
- Hehehe. Você é pior do que eu pensava...
- Pior? Pensei que você gostasse disso. Que todos gostassem.
- Eu gosto, e você consegue ser ainda mais surpreendente no frio.
- Claro, meu amor! Não deixemos cair na rotina o que o mal começou...
- Mal começou ou começou mal?
- Já disse que essas coisas acontecem. Relaxa que eu vou cuidar de você.
- Vai mesmo?
- Melhor do que qualquer mulher já cuidou antes.
- Assim me sinto mais seguro...
- E você deve se sentir assim mesmo. Segurança é tudo em um relacionamento. Escuta, eu te pego!
- Ok. Estou te esperando então.
- Beijos!
- Beijos, te amo.
- Tchau.

Carreguei minha arma, coloquei-a no bolso do casaco e fui buscar meu amado. Eu vou cuidar dele, como nenhuma mulher cuidou antes.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

M & M

Dia dois de junho fará um ano que eles surgiram nas nossas vidas, no nosso pequeno apartamento. Queria que a Ana tivesse novamente o prazer da companhia de um bichinho de estimação, então entrei num site de adoção de animais, e foi lá que a vi pela primeira vez. Era rajada, um filhotinho, e chamava-se Fronha. Achei o nome uma graça, e ela tinha aqueles olhos enormes e o jeito serelepe que os pequenos sempre têm. Um mês de idade. Foi o primeiro filhote que vi na página e foi o que de imediato me chamou a atenção.

Mesmo assim, quis olhar os demais. Logo embaixo da sua foto, havia a de outro . Ele era pretinho, pequenino como ela, e chamava-se Espirro. Vendo mais fotos, vi que apareciam juntos. Eram da mesma ninhada, daí pensei que se fossem dois, um haveria de fazer companhia ao outro, e por isso, nunca estariam sozinhos.

Estava decidido. Adotaria os irmãos. Liguei para a moça que os acolhera e ela me contou a história deles. Disse que uma pessoa havia ligado para ela, avisando que se ela não ficasse com a ninhada, mataria todos. Ela apiedou-se dos pequenos e os acolheu.

Me disse todas as coisas que se diz para uma "mãe de primeira viagem", e ficou especialmente preocupada quando eu disse que morava em um apartamento sem redes de proteção. Deu o telefone e o endereço de uma clínica que os castraria por um preço camarada, e me deixou ciente de toda a responsabilidade que envolvia a adoção dos animaizinhos.

Eu consenti com tudo, disse que providenciaria as redes, que os levaria ao veterinário e que cuidaria deles com carinho.

No outro dia, à noite, ela chegou com eles. Vinham dentro de uma cestinha de vime e cheiravam a carro novo, por causa do banho a seco que haviam tomado. Eram tão pequenos que cabiam cada um em uma mão.

Assinei um termo, ouvi suas últimas recomendações, e naquele dia mesmo já tinha me preparado para recebê-los, comprando caixa de areia, areia, ração para filhotes, toca e tudo o mais.

Pronto, agora tínhamos um casal de gatinhos.



Eles eram graciosos, e a Ana caiu de amores pelos dois imediatamente, até o Bruno que não era muito de bichos, gostou deles.

Mostrei a eles a caixa de areia, com a qual tiveram instantânea identificação. Coisa de gato. E a primeira surpresa veio pela manhã. Quando acordamos, havia patinhas de cocô no sofá e em cima do meu notebook. Já batiazaram a casa e a caixa de areia com uma tremenda diarreia, resultado da troca de ração. Mas isso era de se esperar...

Decidido, então, que enquanto seus pequenos intestinos não estivessem acostumados à nova comida, eles domiriam na área de serviço para evitar maiores surpresas pela casa.

No terceiro dia, levamos os pequenos para que fossem esterelizados. Foram dentro de uma sacola de praia, sem grandes protestos. Entregamos as criaturinhas para o veterinário sob o olhar de "oh, eles são tão pequenos!" da secretária. Em menos de meia hora, estavam de volta na sacola, inconscientes, moles e com as linguinhas para fora, para evitar que sufocassem. Disse o veterinário que não deveríamos alimentá-los até o outro dia, e que dentro de algumas horas eles acordariam.

Fomos para casa, e os colocamos dentro da toca. Lá, eles ficaram, até o momento em que, como pequenos gatos zumbis, foram acordando. Arrastavam-se e tombavam. Caídos ficavam, até tentarem se levantar novamente, com enorme dificuldade e muitos tremiliques. Assistimos àquilo num misto de pena - por eles - com muito escárnio. Era muito engraçado vê-los daqueles jeito, como que embriagados. Até vídeos temos, para a posteridade.

No dia seguinte, já pulavam e sassaricavam pela casa, como se não tivessem pontinhos de nylon nos seus corpinhos frágeis.

Logo as redes foram instaladas em todas as janelas, e eles já estavam habituados à nova vida.

Esqueci de dizer que os re-batizamos. Chamavam-se, agora, Marte e Marta.

Como todos os gatos, eles só atendem pelo nome quando lhes convêm, ou seja, quase nunca.

O Marte, na verdade, tinha um nome muito adequado à sua condição - Espirro -, visto que eu acredito que ele seja um gato asmático, com desvio de septo ou algo do gênero! Pois vejam vocês que o animal dorme de língua pra fora, com a boca meio aberta, e volta e meia espirra. Deve ser alergia aos pelos!

Cada um tem suas peculiaridades, e elas já vinham me pedindo que escrevesse a respeito, há algum tempo.

Os dois têm uma tara por Halls, sim, aquele do "alívio refrescante". Eu tenho os pacotinhos sempre comigo, e eles não podem vê-los, que abocanham os ditos e saem brincando com eles pela casa. Várias vezes já acordei e me deparei com vários drops jogados  pelo chão da sala. As embalagens estão sempre cheias de furos de dentes. Eles são tão caras de pau que chegam a fuçar a minha bolsa para roubá-los.

Outra coisa curiosa é o fetiche que a Marta tem pela estátua de São Francisco de Assis, de cerâmica, que tenho no hall de entrada do meu apartamento. Sempre que a porta está aberta, ela vai lá, se esfrega generosamente no santo e o lambe. Lambe como se ele fosse feito de peixe, lambe com devoção! Nunca vou entender o porquê disso...

Seu irmão também tem algumas preferências exóticas: adora "comer" cotonetes. Não que eles os coma de fato, nada disso, mas adora arrancar o algodão das pontas da haste e brincar com ela até que a enfie embaixo de algum móvel inacessível. Se ele vê o copinho onde eu guardo os cotonetes, com prazer, vai lá e pega um com a boca e, se pudesse, destroçaria uma caixa inteira deles! A Marta, por sua vez, é uma gata que faz neve com o papel higiênico do banheiro. Sim, neve! Produzida por suas garrinhas afiadas  e seus dentinhos pontiagudos. Porta do banheiro aberta é sinônimo de espetáculo natalino aqui em casa!

E eu fico quase louca!

Porque, é claro, além dessas peripécias, eles já aprontaram muitas outras! Louças quebradas, papéis roídos - eles são como cabras -, bolas de pelo pela casa, meu sofá e as quinas das camas, que são box, destruídos! Se tenho vontade de jogá-los pela janela pelo menos três vezes por semana? Oh, sim, tenho muita!

Mas assim como eles são umas pragas, são também extremamente amorosos, e não é só por interesse!

A Marta já enfiou as unhas nas minhas costas a ponto de sangrar feio. O Marte já meteu as unhas no meu seio e pescoço de um jeito que fiquei com as cicatrizes dos pequenos buracos, e a última dele fez com que parecesse que eu era uma viciada em drogas injetáveis, pois ele enfiou a garrinha bem na junção do meu braço com o antebraço. Mas ok, coisas da vida.

A Ana também, volta e meia, é vítima de uma brincadeira selvagem deles, com direito a unhas e dentinhos, mas nada grave.

A compensação para a selvageria dos felinos vem em forma de amor ronronante, de olhares compreensivos de dois gatinhos que se esfregam na gente, deitam sobre o nosso peito, aninham-se na nossa barriga, esfregam suas cabecinhas no nosso rosto incansavelmente; esfregam todo o seu corpinho peludo contra o nosso, e se a gente permitir, esfregam, carinhosamente, até suas "bundinhas peludas" na nossa cara!

Eles são inteligentes, sacanas a adoram aprontar. Quando sabem que fizeram algo errado, saem derrapando de tanto que correm. Sua lutas e brincadeiras são uma atração à parte! Nem preciso dizer que a Marta quase sempre leva a pior e que, às vezes, eu preciso apartá-los. Eles não são muito de miar, mas se comunicam que é uma beleza. Estão quase sempre juntos, e quando não estão, um mia para chamar o outro. Um dá banho no outro, coisa, aliás, que fazem frequentemente. Dormem juntos e comem juntos e, obviamente, quando pode, o Marte rouba a comida da Marta, coisa de gordo.

São abusados e, se eu deixar, viram senhores da minha cama. Mas já andei cortando as asinhas deles...



Esses animais são um espetáculo! Destroem a casa durante a noite, se matam brincando na sala, mas todos os dias, quando eu abro a porta do meu quarto, eles estão ali, esperando... Por comida é claro!

Sempre ficam no banheiro comigo enquanto eu tomo banho. Deitam sobre o tapete em frente ao box, e depois que eu saio, recebo da Marta lambidas nas pernas. Depois disso, eles entram no box, tomam a água quente que vai se esvaindo pelo ralo e procuram atentamente por mosquitinhos, para exercitarem seu lado predador.

Apesar de terem uma pancinha dependurada, em virtude de serem esterelizados, e apesar de o Marte ser um gato obeso com cara de deboche, eles mandam ver nas baratas que de vez em quando aparecem por aqui. A Marta, com seu porte mais delgado, e com a barriga mais cuti cuti que Deus já fez pra um gato, também é uma boa caçadora de insetos.

Aliás, a Martinha é uma gatinha doente. Ela tem leucemia, doença que eu não fazia ideia que poderia acometer felinos até descobrir que ela tinha essa tal coisa. Ficou sem comer, sem tomar água... - me lembrem que eles também têm fetiche pela água da privada, não para beber, mas adoram enfiar as patas lá dentro e sair pela casa fazendo arte molhada! - Achei que fosse perdê-la.

Em dois dias, ela estava anêmica. Foi internada, fez transfusão de sangue e tudo! Exames, comida especial. Chegou na clínica totalmente caidinha. Depois de ter um sanguinho novo no corpo, estava histérica! Quando viu a mim e à Ana, miava pedindo para que lhe tirassem daquele lugar.

Depois de dois dias fora de casa, depois de eu ter ficado mais de 700 reais mais pobre, depois de ter ido chorando para o trabalho, e de ver minha filha chorando compulsivamente, achando que a gatinha mais amiga dela, aquela que tanto a amava e demonstrava todo esse amor repousando calmamente sobre ela todas as vezes que ela assim queria, depois de achar que a criaturinha não resistiria, ela se recuperou. É certo que não sabemos por quanto tempo ela se manterá bem, mas faz quase três meses que ela está serelepe quebrando tudo por aqui com seu irmão meliante e dentuço.

Ia me esquecendo de contar que o Marte tem um fraco por bebidas alcoólicas. Ele toma cerveja, e eu não descobri isso oferecendo a ele, não. Foi pura casualidade. Lata aberta numa reunião de amigos por aqui, e lá foi o gato ver o que tinha na dentro. Adorou o líquido que ficava nas bordinhas... Ia atrás de outras para beber mais. Até queria vê-lo bêbado, mas poderia ser letal, então melhor não levá-lo para o mau caminho...

A última dos irmãos foi essa semana. Cedo, a Ana me acorda dizendo que há penas pela sala e cozinha. Abro a porta, vejo penas pretas, pluminhas... Muitas delas... Não tenho nada com penas em casa... Então imagino que tenham "brincado" com um passarinho... Mas não vejo passarinho algum. Temos que sair. Trabalho, escola, compromissos. A casa fica como está. À  noite, o Marte dá a deixa, deitando no chão e enfiando a pata o máximo que pode embaixo de um móvel da sala. Quando eu chamo a atenção dele ele, no susto, tira a patinha, e junto com ela vem mais um pluminha, e eu penso: "Puta que pariu, achei o passarinho!". E não deu outra.

Puxei o móvel, e lá estava ele, pequeno, duro, meio depenado... Mistério resolvido. Embaixo do móvel também estavam umas quatro ou cinco embalagens de Halls... A brincadeira acaba para eles quando enfiam os "brinquedos" em lugares que suas patinhas não alcançam...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Nel Mezzo del Camim

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Olavo Bilac


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Solidão

Pensei na praia, na forte claridade; o céu azul, o vento fresco que vinha como um pequeno sussurro... Deitada na areia, com o chapéu sobre o meu rosto, sentia os minúsculos grãos dando leves batidinhas contra minha pele. Pelas frestas da palha, conseguia vê-la brincando no riozinho que passava em frente a mim.
O silêncio do mar é inebriante.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O tema preferido

A morte sempre foi uma inspiração à minha escrita. Falar sobre ela, sobre o apodrecimento da matéria é algo que me excita e, ao mesmo tempo, me mostra como somos frágeis diante de qualquer coisa.
Nosso corpo funciona magnificamente, até que ele padece. Basta cair de mau jeito e bater a cabeça, pronto, você pode ter um traumatismo craniano e sangrar até morrer. Se você tiver uma diarreia ou uma gripe muito forte e não se cuidar, pode acabar morrendo.
Somos tão frágeis quanto formigas. A qualquer momento podemos ser esmagados pela vida, pelo tempo, pelas nossas atitudes e escolhas.
Particularmente, gosto das mortes brutas. A ânsia ao ver um corpo transformado numa massa sangrenta é algo repulsivo, mas que traz enorme reflexão e vazio. Corpos mutilados, estripados, aniquilados, degolados mostram que não somos nada.
Por muito tempo tive um sonho repetitivo em que duas moças eram atropeladas por um carro e seus corpos não eram mais do que um amontoado de carne grudada ao asfalto. Via com detalhes as formas asquerosas de seus órgãos estourados , a carne vermelha; cabeças esmagadas, olhos saltados, cabelos junto a secreções e ossos esmigalhados. Perdi a conta de quantas vezes as vi. Havia repulsa, mas havia algo maior que eu não saberia descrever, mas que a morte delas queria me mostrar.

Depois desse sonho, tive um outro, igualmente incômodo, mas que envolvia muito mais gente. Sonhava que estava às voltas do hospital da cidade onde cresci, e quando lá entrava, nossa! Era como um açougue, pois havia corpos por todos os lados, que haviam sofrido as mais diversas dores. Havia sangue pelo chão, enfermeiros que pareciam não ligar para a situação, e os corpos amontoados em salas esparsas que eu podia ver, andando pelos corredores do lugar.
Sinto angústia por sonhar com isso, mas não tenho medo. Estão mortos. Apesar disso, quando via que o sonho ia se encaminhar novamente para o hospital que eu já vira outras vezes, me indagava por que estava sonhando com aquilo de novo. Não tenho respostas.
Às vezes me imagino morta da forma mais aterradora que eu possa... Tenho a impressão de que uma morte estúpida e grosseira é muito mais real do que aquela que acontece num leito de hospital. Pra ela ser de verdade, os bombeiros têm que catar você do asfalto com a ajuda de uma pá, e reclamar um pro outro: “Odeio meu trabalho”.
Morrer faz sujeira, pois somos imundos por dentro, somos apenas um monte de excremento ambulante, até que viremos novamente excremento embaixo da terra, ou de uma carro, ou de uma ponte.
Morrer parece ser um alívio tão grande... Mas só os torpes conseguem, só os covardes conseguem a morte gloriosa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"Sagacidade aristofânica:

o prazer não é o que atrai os amantes, mas aquilo que permite que, saciados, possam separar-se! O prazer não é um fim como meta, um fim teleológico da atividade amorosa. O prazer é um fim como extremo, que consuma e encerra o movimento do desejo, é o fim escatológico do desejo. De modo que não é o gozo o que determina o amor, mas apenas o que permite a calma desse ardor e assim tempera os ânimos da natureza humana. Assim, o amor portador do gozo é o que lhe cura a indigência da cisão primordial e ao mesmo tempo o que permite uma vida harmoniosa a cada uma das caras-metades humanas."



Em Arqueologia dos Prazeres, de Fernando Santoro

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sobre ser mãe

Ter um filho é algo que muda as perspectivas da nossa vida. É bom? Sim. É mágico? Muito. Se eu teria outro filho? Não. Não, porque um filho envolve muito mais do que a visão de um pequeno e indefeso ser com cheirinho gostoso. Um filho envolve muito mais do que as condições necessárias para criá-lo; um filho envolve muito mais do que o desejo de ser mãe, muito mais do que desafiar a sua sanidade mental e colocar o controle da sua vida fora de você mesmo.

Imagine você, senhora da sua vida e do seu destino; agora, imagine-se com um filho. Pronto, você não tem mais controle, sua vida não é mais sua, sua vida agora é duas; a sua e a dele, sendo que sem ele, você não vive mais, não plenamente, não como antes, e um dia você não poderá mais dizer a ele o que fazer e como fazer. O filho vai viver a vida dele, e pode até se desligar de você, mas você... Você estará para sempre ligado a ele.

Durante nove meses eu fui o abrigo seguro e aconchegante que nutriu uma menina e fez com que ela se desenvolvesse perfeitamente. O que eu ganhei? Além dos seios caídos, das estrias por toda a parte e da barriga murcha e vazia, ganhei um título: o de mãe. Sonhava com ele só quando era criança, quando ter um bebê parecia encantador, parecia a mais nobre de todas as funções que uma mulher poderia ter.

Filhos são para a vida toda, mesmo quando se vão, mesmo quando somem, mesmo quando são abortados, pois acredito que por mais feminista, independente, irresponsável ou burra que uma mulher possa ser, quando ela aborta, sabe que em algum momento teve um filho dentro de si, e não vai esquecê-lo nunca.

Crianças demandam atenção, tempo, amor, disciplina, educação, afeto, colo, conforto, paciência, disposição; filhos exigem tesão! Tesão para acordar de três em três horas, e ouvir o choro da fome que não consegue ser expressado de outra forma, por enquanto. Tesão para parecer que você está de mudança cada vez que sai de casa carregando uma sacola enorme com fraldas, pomadas, lenços, paninhos, mudas de roupa, mamadeiras e chupetas, fora os brinquedinhos, ah, os brinquedinhos que acalmam...

Você tem que ter muito tesão para lavar as roupas de um bebezinho à mão, dar banhinhos gostosos, ninar, levar ao médico e quase morrer de dor no coração quando percebe que ele chora e que você já fez de tudo para que ele parasse, e ele não para, mas ele também não consegue dizer o que está errado, e depois de algumas horas de desespero ele cede, dorme nos seus braços de maneira angelical, e é só então que você consegue descansar.

Você tem que ser sábio e um sábio com muito tesão para aprender a decifrar o pequeno ser, cheio de segredos, os quais você vai passar vida inteira tentando descobrir, sofrendo para descobrir, achando, com toda a sua arrogância de mãe, que já sabe de tudo. A gente sabe sim, mas é longe de ser tudo.

Nunca conseguiremos passar da porta da morada de nossos filhos, pois eles são muito mais do que nossa extensão, eles são o que são, são eles mesmos.

Minha filha me trouxe uma nova dimensão de vida, mesmo que eu não me dê conta disso muitas vezes. Ela ma traz todo o tipo de alegria; das únicas, como aprender a andar e a comer sozinha, até as mais prosaicas, como os desenhos lindos, o amor aos bichinhos, as risadas, os dentes que caem, e ainda há tantos por cair...

Minha filha ainda me deixará acordada durante a noite, morrendo de preocupação sem saber se ela está bem enquanto sai com os amigos; ela ainda vai me deixar de cabelos em pé pela rebeldia da adolescência; ainda vai me dar alegrias pelas suas conquistas, e vai chorar no meu colo pelas desilusões da vida que serão novidade para ela...

Pois ter um filho envolve muito mais do que ter alguém sob a sua égide, envolve você. E eu sou egoísta, sim, eu sou. Ter uma filha mudou tudo, mudou a minha vida, o meu corpo, o meu jeito de pensar e de agir, mudou os meus planos e minhas prioridades.

Não sou mais a mulher que era, porque hoje eu sou mãe. Antes dos meus desejos, eu sou mãe; antes de sair de casa, eu sou mãe, e preciso de alguém que tome conta da minha filha; antes de ser mulher e de ser possuída por um homem, eu sou mãe, meu corpo não é como antes; sou mãe e sou imperfeita, sou mãe e não me sinto desejada, sou mãe.

No ventre, a cicatriz me diz que eu vivo fora de mim, o corpo flácido me diz todos os dias que eu sou mãe, mas ora ou outra ainda me surpreendo ao ouvi-la dizer a palavra “mãe”, sou eu. A mãe impaciente, brava, que acorda no meio da noite com o grito de desespero da menina que clama por ela, quando de súbito acordou e vomitou por todo o quarto. Eu sou a mãe, que orgulhosa, chora nas apresentações do colégio. Eu sou a mãe que, ouve contrariada, as reclamações que ela faz sobre mim. Eu sou a mãe que quer dormir até mais tarde nos finais de semana e espera não ser incomodada pelo seu pequeno “eu” que exige atenção aos seus novos feitos.

Eu sou a mãe que quer desistir de tudo às vezes, e que quando se sente muito sozinha, só tem vontade de abraçar, chorar e soluçar agarrada à pequena menina, que parece mais adulta do que eu mesma.

Eu sou a mãe que morre de medo de perdê-la e que jamais se perdoaria se alguma coisa ruim lhe acontecesse.

Ter um filho é viver um sem número de emoções boas e ruins, é ter vontade de colocá-lo de vez em quando no guarda-roupas e esquecê-lo lá por uma semana; ter um filho é sonhar com ele de saudade, é sentir o silêncio corroendo a casa vazia; é querer que eles não cresçam nunca, mas que cresçam logo.

Ter um filho é muito mais do que quem não tem um filho possa imaginar. E é por serem tão especiais que não devemos tê-los assim, a torto e a direito, de qualquer jeito, só para nos perpetuarmos, devemos tê-los conscientes de que nunca mais teremos paz, e de que da felicidade deles, depende a nossa.